2 Tm 4.6-8,16-18
Contexto
Com a presente carta, o apóstolo Paulo deseja encorajar Timóteo a permanecer um obreiro fiel. Isto deveria acontecer de todas as dificuldades e contratempos aos quais estaria sujeito. O versículo anterior como que resume todo o incentivo do apóstolo "cumpre cabalmente o teu ministério". Em outras palavras, "Timóteo, quero que te dediques inteiramente ao teu ministério, desempenhando as tarefas com fidelidade" (1 Co 4.2).
Texto
V. 6 Agora, a partir do v. 6, Paulo fala de seu próprio ministério. A fidelidade que espero de ti, Timóteo, eu a conservei até agora. O tempo que o Senhor me concedeu para trabalhar na edificação de sua igreja, está chegando ao fim. Paulo como que deseja fazer a entrega do bastão da fidelidade no pastorado, a semelhança do que se faz nas corridas de revezamento.
Ser oferecido por libação (spéndomai) lembra a morte de mártir que Paulo estava prevendo. A forma passiva (estou sendo oferecido) deixa claro que Paulo, ao falar de si, não o faz com vistas a uma auto-justificação. Se ele pode ser oferecido como libação, também isto é a graça de Deus, agindo nele (1 Co 15.10). "Spéndomai" não é oferta do sacrifício em si (o que seria "thúmai) mas oferta de vinho que era derramado sobre o sacrifício (Nm 15.1-10; conferir Fp 2.17). Se todo o ministério de Paulo é considerado por ele um sacrifício ofertado a Deus, seu martírio que está prestes a acontecer, marca o último ato da cerimônia sacrificai.
V. 7 Ao pressentir a chegada de seu fim terreno, Paulo faz um rápido balanço de sua vida c, apesar de esta ter sido uma luta árdua e renhida, não há ressentimentos. Pelo contrário, ele a denomina de "bom combate". "Combate" faz referência às competições atléticas em busca de um troféu. O combate de
Paulo era para guardar a fé a fim de alcançar a coroa da vida (Ap 2.10), fato que também se pode constatar no versículo seguinte e em 1 Tm 6.12 e Fp 3.14. O tempo perfeito dos verbos indica que Paulo ainda se encontrava na luta, pois seu fim, embora iminente, não havia chegado.
V. 8 Aqui Paulo menciona o que o aguarda depois de o "bom combate" terminar, a coroa da justiça. "A coroa da justiça" precisa ser entendida conforme o conceito de justiça empregado em outros escritos de Paulo. É a justiça de Deus como um ato forense. É justiça imputada e se revela no evangelho (Rm 1.17; 3.21-28). Deus é quem declara o pecador justo pela fé nos méritos de Jesus Cristo. Esta fé se manifesta através de toda a sorte de boas obras (2 Tm 3.17). A idéia de a "coroa da justiça" ser uma dádiva de Deus aparece também na expressão "a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia". Por ocasião da volta de Jesus, a justiça de Deus, tal como agora é anunciada no evangelho, será reconhecida por todos.
A coroa da justiça está também destinada "a todos quantos amam a sua vinda". Naquele tempo de perseguições e dificuldades, uma das características dos crentes era a de aguardar ansiosamente a volta de Jesus a fim de serem recebidos na sua glória.
V. 16 Não é possível identificar com exatidão a quem. se referem as palavras "ninguém foi a meu favor". Alguns crentes estavam com Paulo (vv. 11 e 21), outros haviam-no abandonado (vv. 10 e 14) ou não estavam com ele por atenderem, a compromissos com as igrejas (vv. 10,12,20). As palavras "que isto não lhes seja posto em conta" parecem indicar que alguns cristãos poderiam ter comparecido ao tribunal e falado a favor de Paulo. No entanto, Paulo tinha outros amigos, não crentes, de posição destacada. Nenhum, deles falou a seu favor. Os tempos eram de extremo perigo. Ninguém quis se expor a defender um adepto da "seita", acusada de incendiar Roma e que agora já não era mais confundida com o judaísmo.
V. 17 Paulo, no entanto, não estava sozinho. O Senhor cumpriu a sua promessa feita em Lc 12.11-12. Mais uma vez leve ele a oportunidade de testemunhar e todos os gentios que se encontravam no tribunal (inclusive nas galerias), puderam ouvir o evangelho. Provavelmente muitos dos futuros mártires foram ali, pela primeira vez, "tocados" pelo Espírito Santo. Deus se utiliza de circunstâncias as mais estranhas para anunciar a mensagem da salvação c fazer germinar a palavra como e quando lhe aprouver.
As palavras "fui libertado da boca do leão", para alguns, se referem ao imperador Nero, para outros Paulo teria sido condenado a ser lançado diante de leões, mas escapado desta pena devido a sua condição de cidadão romano. Para outros, ainda, as palavras se referem a um perigo espiritual. Paulo teria escapado das mãos de Satanás. Lenski parece estar certo ao dizer que se trata simplesmente de uma linguagem figurada, segundo a qual, na primeira audiência, Paulo não foi condenado à morte.
V. 18 Paulo sabe que as suas chances são mínimas de escapar da morte quando tiver de enfrentar o próximo julgamento. Tem ele a esperança de, antes disto, ao menos, mais uma vez, encontrar-se com Timóteo. Caso for sentenciado, ele estará livre das forças malignas de Satanás e de seus instrumentos. Logo a seguir Paulo estaria com o Senhor, no seu reino celeste (Fp 1.23), enquanto o seu corpo permaneceria aqui aguardando a ressurreição.
Ao vislumbrar a chegada do dia em que seria executado e compareceria à presença do Senhor, longe de se lamentar, Paulo irrompe numa doxologia. Estará com o Senhor "pelos séculos dos séculos". É a mais forte expressão grega para expressar "por toda a eternidade". O acréscimo do "amém" é resultado da certeza que provém da fé, "isto é certamente a verdade, eu creio nisto".
Disposição
COMBATI O BOM COMBATE
I — Completando a carreira (7)
II — Guardando a fé em Cristo (7)
III — Sendo assistido pelo Senhor (17)
IV — Tendo certeza de receber a coroa da justiça (8)
Christiano Joaquim Steyer