PEÇA TEATRAL: “ALÉM DOS SONHOS (APOCALIPSE)”
AUTOR: GLAYDSON SOUZA FREIRE
PRÓLOGO: Sala de cirurgia com quatro cientistas e uma câmara com um paciente.
CIENTISTA 1: Não parece, mas passaram-se dez anos desde o dia sete de novembro de 2005, mais precisamente às 8:30h da manhã. Até hoje, sete de novembro de 2015, exatamente (olha no relógio), 8:30 da manhã.
CIENTISTA 2: O que esta registrando o eletroencefalograma.
CIENTISTA 3: Não entendo (olha novamente, curioso)?! Aqui está registrando sonhos.
CIENTISTA 4: O que?! Sonhos?! (Assustados).
CIENTISTA 3: Sim, sonhos. Muitos sonhos, vejam...
CIENTISTA 4: Não é possível; deixa ver isto.
CIENTISTA 2: Mas, isto é inacreditável! Como ele pode ter sonhado se todas as suas funções cerebrais e metabólicas estavam completamente congeladas, paralisadas?
CIENTISTA 1: E por que estes sonhos foram registrados somente hoje? Pois, até ontem nas observações diárias, nada, absolutamente nada constava.
CIENTISTA 3: Isto é realmente incrível! Será que ele teve todos estes sonhos somente nesta noite?!
CIENTISTA 2: Bom, vamos despressurizar e ver se o paciente está pelo menos vivo.
(Todo o anfiteatro fica escuro ou pouca luz. Som suave com um anjo e a morte, ambos segurando um vela - a morte, vela vermelha - e ficam andando no meio da platéia. Quando começam a sair, a narração em grego começa. Ap 1.1-2)
NARRAÇÃO: Ap 1.1-2
(Aumenta a música, de sedução. Uma cama, em um dos lados do palco, e nela o personagem João, dormindo. A cena é um sonho após a breve narração sarcástica).
Breve Narração Sarcástica:
Depois de mil anos, Lúcifer será solto. Ele vai usar a sedução para dominar seus seguidores, que são muitos, muitos (rir)! Tudo parecerá está perdido, mas lúcifer, o sedutor (rir), e todos os seus adeptos são derrotas! (rir).
Coreografia de Ap 20.7-10: Lúcifer é sedutor e sádico (música).
(João acorda espantado)
JOÃO: Não consigo entender o que sonhei, mas, com certeza, já ouvi algo a respeito deste meu estranho sonho ou será que foi pesadelo? (sentado na cama). Mas foi muito estranho mesmo. Estas coisas nunca passaram pela minha cabeça, nem quando era criança. Bom, mas deve ter sido mais um sonho sem importância. Vou dormir, isto sim.
(Não consegue dormir. Vira de um lado para o outro na cama).
JOÃO: Não adianta, não consigo dormir. Ah! Já sei, deve ser sede ou... quem sabe, devo ir ao banheiro. É, vamos ver. (sai).
(João volta, deita-se na cama e cai em um sono profundo. Começa a sonhar a passagem Ap 17.1-18 que será representada. Durante a representação, João assistirá, como espectador de seu próprio sonho, do alto. No fundo do cenário serão projetadas as sombras de João, autor de Apocalipse, e do anjo que descreve a cena para ele. A cena será realizada em todo o anfiteatro)
PROSTITUTA: (Entra no palco vestida de vermelho, com uma taça de vinho e com muitas jóias) Venham, venham deliciar-se em meu corpo. (Seduz intimamente as pessoas) Sou de todos vocês. Façam o que quiserem de mim. Todos sabem que querem possuir-me e sempre desejaram-me. Quero sangue de cristãos e a cabeça dos ministros e pastores numa bandeja de ouro. Vocês têm sede na minha boca, no meu corpo e nas riquezas que posso dar a todos vocês.
HOMEM SOCIAL: (Do meio da platéia) Somos homens e mulheres levados numa corrente de espaço e tempo com as nossas forças limitadas. Queremos tudo: Riquezas e poderes. Chega de submissão e mediocridade aos céus. Queremos mais! Queremos ser ilimitados aos céus. Estamos fartos de doutrinas clericais e de obediências cristãs. Não precisamos ser perdoados e nem, muito menos, da ressurreição. Temos tempo e espaço. Somos seus e almejamos possuí-la, agora. (A prostituição e o H.S. Trocam carícias e ele bebe do vinho).
PROSTITUTA: Esta é a bebida dos deuses. É o sangue da eternidade que lhes fará enxergar além da cortina da vida e da melancolia da morte.
HOMEM SOCIAL: Minha deusa (faz reverência à prostituta e sai a seduzir pessoas. O primeiro seduzido será um gay).
GAY: Oi, amor! Mas, este seu manequim está uma gracinha. Quem é aquele? (Referindo-se ao Homem Social). É um amante seu? Se for, querida, saiba que será meu bofe. Olha, eu achei esse seu discurso lindérrimo e estou desmanchando-me toda. Estou à sua disposição, é que você seduziu-me com esse seu encanto, embora não seja eu chegado no material (Aponta para a prostituta). O que Vossa Excelência quiser que eu faça, farei (A prostituta acaricia o gay e o mesmo afasta-se).
PROSTITUTA: Você acertou, garanhão! Esta é uma das minhas armas mais poderosas, a sedução. Com ela consigo adeptos de todas as formas, partes, de todas as raças, etc. Assim como você, todos aqui, em breve, serão meus e experimentarão o meu vinho.
GAY: Caso você não percebeu, querida, Eusinha também sou chegada num vinho, ou melhor, no suco dos deuses.
PROSTITUTA: Como não! Bebe. Bebe tudinho que de onde veio este, ainda tem muito mais.
HOMEM SOCIAL: Mestra (acariciando-a)!
GAY: Ui!
PROSTITUTA: Claro que sim e em breve todos serão meus escravos e ...
HOMEM SOCIAL: Estamos conseguindo mais adeptos.
CRISTÃO: (Gritando) Não!! Sou do meu Salvador Jesus Cristo e nada nem ninguém vai separar-me do meu Senhor (Saem do palco. Acontece rápida mudança de cenário para um ambiente de escritório. João fala com um amigo).
JOÃO: Pedro, rapaz. Esta noite tive dois sonhos, um mais louco do que o outro. Coisas que não tenho nem costume de sonhar, nem mesmo ficar pensando. Para você ter uma idéia, em um dos sonhos, ou melhor, pesadelos, havia uma prostituta, daquelas bem depravadas e uma bicha louca (rindo).
PEDRO: Passa aquela caneta, por favor. Obrigado. Olha João, este tipo de sonhos aí (balança a cabeça), eu não sei não. Com bicha no meio, estou começando a desconfiar de você em ...
JOÃO: O quê?! Está estranhando-me é?
PEDRO: Não, amigo, é brincadeira. Mas, esquece, João. Sonhos nada significam. Os cientistas, mesmo, dizem que os sonhos são só manifestações do nosso subconsciente e às vezes algo que pensamos durante o dia que o nosso cérebro ou nossa imaginação exageram. Sonhos e pesadelos, meu amigo, são sem importância, vai por mim!
JOÃO: É, acho que sim. Você tem razão. Que horas são, Pedro?
PEDRO: São 18:05hs, rapaz, passou da hora. Vamos embora. Aqueles seus sonhos tomaram um tempo nosso, hein. Vamos tomar um drink lá no bar da lua?
JOÃO: Vamos, hoje é sexta mesmo.
(Os dois saem e, na rua, cruzam com uma prostituta vestida da mesma maneira da prostituta do sonho de João. João fica espantado).
PEDRO: Pois é João, o gerente está mesmo aderindo ao nosso futuro-presente. Ele acredita realmente que o futuro chegou. Imagine que ... (João pára e fica olhando para a prostituta).
PROSTITUTA: Oi, gostosão! Está afim de um programinha?
PEDRO: Que é isso, João? Está maluco?! Logo esta aí?! Ei, tem alguém em casa? Acorda João, o que houve?
JOÃO: Você acredita se ... Não, não. Deixa para lá, vamos ao drink. (chegam ao bar).
PEDRO: (chama o garçom) João, você está estranho, meu caro. Alguma coisa fez mal a você no almoço (João bate na sua barriga) ou foi alguma bronca do gerente? Não vai dizer que ainda está preocupado e pensando naqueles sonhos.
JOÃO: Não sei Pedro. Mas, não estou sentindo-me bem desde esta madrugada, depois daqueles “Benditos” sonhos...
GARÇOM: Pois não? (o garçom é um gay muito semelhante ao gay do sonho de João. João assusta-se).
PEDRO: João, isto já está tornando-se crítico. O que aconteceu agora?
JOÃO: Está tudo bem. Garçom, traz dois Whiskys, por gentileza. (O garçom vai saindo, João pergunta para ele). A propósito, onde está o outro garçom, o Adriel? (João está em pé).
GARÇOM: Ele faleceu ontem à noite, parada cardíaca (João senta-se bruscamente na cadeira).
JOÃO: Não acredito, outro!
PEDRO: Outro o quê, João?
JOÃO: O garçom, é o mesmo, é bem parecido com a minha bicha ...
PEDRO: O quê?
João: Quero dizer, com a bicha do meu sonho.
PEDRO: É demais, não acredito (rindo e balançando a cabeça).
JOÃO: É sério. E não só o gay, mas também a prostituta lá atrás, ela também é parecidíssima com a vagabunda lá do sonho.
PEDRO: João, meu amigo, isto já está ridículo. Você quer ir para casa repousar? (o garçom deixa a bebida na mesa e João fica só olhando para ele).
JOÃO: Não. Não quero. Vamos beber e esquecer (Brindam).
PEDRO: É assim que se fala, muito bem. Mudando de assunto ou como falava-se antigamente: “Mudando de pau para cacete”. Você ouviu falar num armamento nuclear que estão aperfeiçoando. Eles querem voltar no tempo. Dizem os cientistas, que para conseguirem isto é preciso que cheguem à velocidade da luz.
JOÃO: Tudo bem que já estamos no segundo milênio A.D., mas isto é muito difícil. Pior ainda, é o projeto que estão visando, é uma espécie de congelamento das moléculas de uma pessoa, afim de estancarem seu metabolismo. A pessoa fica como morta e acordam ela com 10 a 20 anos neste estado. Ela acorda totalmente conservada.
PEDRO: É, e quem vai ser o voluntário? Você?
JOÃO: Você é louco! Não sei não, mas parece mesmo que estamos chegando perto do fim dos tempos. Qual é a palavra que os evangélicos usam para o fim?
PEDRO: Apocalipse.
JOÃO: Isso mesmo.
(Acontece uma explosão que só João sobrevive. Ele levanta-se de joelhos e arranca a pele de seu rosto deformado. Fogo no Palco).
JOÃO: O que houve meu Deus? Pedro? Pai, mãe? Onde estão todos? Estou derretendo. Jesus Cristo! (Rasteja-se e cai do palco para o chão, ficando ali deitado. Então, começa música triste, depois chega a assistência levando-o ao palco-sala de cirurgia).
MÉDICO I: Precisa de mais oxigênio e a pressão quase zero. Pulso?
MÉDICO II: 4 por segundo.
MÉDICO I: Precisamos dar choque. Coração em pani (Dão choque no paciente).
MÉDICO III: Ele ficou três dias neste estado.
MÉDICO IV: O quê?! A pressão do cérebro está altíssima. Não podemos perdê-lo (continuam os médicos dando assistência. A música aumenta, depois baixa e em seguida a narração).
NARRAÇÃO: Um, dois, três dias ficou João entre a vida e a morte. De um dos seus lados havia um anjo e do outro a morte pronta para decepar a sua cabeça e lavá-lo. Mas, aqueles sonhos, apesar das circunstâncias e da sua situação de morto-vivo, não saíram de seu subconsciente e, agora mais do que nunca, aqueles pesadelos começam a ter sentido e dar sentido à vida de João. Embora sem forma e sem nexo, aqueles pesadelos começam a passar pela sua memória que vegeta. Os sonhos misturam-se, unem-se em um só, (alguns personagens dos sonhos misturam-se. Cenas paralelas) dando origem a outro sonho mais sem sentido ainda. (Saem os personagens dos sonhos).
MÉDICO IV: Conseguimos. O paciente está salvo, graças a Deus. Só precisa ficar em observação.
MÉDICO III: Ouvi falar algo a respeito deste paciente de nome (olhar na ficha)... Aqui não está o seu nome.
MÉDICO I: Não está aí?! Mas o que você ouviu falar do paciente?
MÉDICO III: Que os cientistas querem o paciente para uma pesquisa ou experiência, não sei. (os cientistas entram na sala ao lado).
MÉDICO II: Será que é para o congelamento de suas moléculas?
MÉDICO IV: Bom, não compete a nós, a nossa parte fizemos. Vamos (quando saem encontram-se com os cientistas na sala ao lado).
CIENTISTA I: O paciente vive?
DOUTOR III: Sim.
CIENTISTA I: Estamos aqui para levá-lo, imediatamente. Sabemos que vocês, provavelmente, não foram avisados de nossa visita. Dr. Lucas e eu sou Dr. Paulo. Somos do Centro de Pesquisas Genético-Metabólicas. Dr. Lucas, a autorização.
CIENTISTA II: Aqui está (entrega). Vocês devem está sabendo que ele foi o único sobrevivente da explosão nuclear de Ierusanápoles. Até agora não sabemos de nenhuma informação do paciente. Então?
MÉDICO IV: Precisaria de algumas semanas de observação. Caso contrário, vocês teriam que assinar o termo de compromisso ...
DIRETOR: Tudo bem Dr. Joel, o paciente está liberado. A hora que vocês quiserem levá-lo, fiquem à vontade.
CIENTISTA II: Está bem. (saem. O palco, agora, é a sala de congelamento de João; está deitado na câmara).
CIENTISTA III: (falando para a junta de cientistas e para a platéia). Aqui estamos, finalmente. A revolução da ciência de todos os tempos (aponta para a câmara). Congelaremos as moléculas deste homem numa câmara de nitrogênio sólido e ele ficará num estado de animação suspensa durante dez anos. Bem, talvez vocês estejam se perguntando: Mas como ele não morrerá? (para a platéia). Não será possível de ocorrer, neste ínterim, uma parada cardíaca, uma convulsão irreversível ou talvez um atrofiamento (trauma) das suas células nervosas devido à grande pressão que estão sendo submetidas durante o processo? É, na verdade estes traumas poderiam acontecer, mas a prevenção contra tudo isso é o não funcionamento das suas atividades metabólicas. Assim, o paciente poderá, com certeza, ficar dez anos neste estado.
CIENTISTA II: Dr. Jonas, é bom lembrar que isto é um experimento. Nunca ninguém tentou realizar este tipo de terapia, pelo menos não em tão grande espaço de tempo, 10 anos. E, se o paciente não suportar, se ele morrer. Saibam que não estou tão convicto. Talvez se ...
CIENTISTA IV: Sei onde o Dr. Paulo quer chegar; que diminuamos o período de congelamento. Não é isso?
CIENTISTA II: Perfeito.
CIENTISTA IV: Então, Dr. Jonas?
CIENTISTA III: Não acredito que os Drs. ainda têm dúvidas. Depois de anos de estudos, pesquisas e determinações. Não posso acreditar. Quanto ao paciente morrer, isto esta fora de cogitação, é impossível. Não entendo, foi o Dr. Paulo mesmo que encarregou-se de investigar e diagnosticar esta possibilidade que o Dr. mesmo nos garantiu não ocorrer.
CIENTISTA II: O Dr. Jonas tem razão. Vamos iniciar o processo. (colocam João para congelar e saem).
NARRAÇÃO: (Enquanto isso, o próximo cenário é preparado. Terá uma igreja. O narrador aparecerá sentado em algum lugar alto do anfiteatro).
João é colocado na câmara e agora ele não vive, mas também não está morto. João, na verdade, não passa de uma cobaia nas mãos daqueles cientistas ou será que devo chamá-los de “Homens do amanhã”? Quando estava com o Jaz amigo Pedro, João nunca poderia imaginar que algo assim poderia acontecer consigo. Mas, será que aqueles sonhos tinham alguma ligação com o que está acontecendo. João não sabe, pois ele não vê, não ouve; ele não sente; ele vegeta; ele não existe ... (pausa) João só sonha. (sai narrador).
SONHO DE JOÃO: Ap 12 (coreografia cantada e encenada).
MULHER GRÁVIDA: (Que representa a igreja de Cristo. A mulher está sentada e vestida de amarelo. Dos dois lados haverá um arco pela metade que simbolizará a aliança do AT com o NT). Sou a igreja do Senhor que salva os homens da condenação. A igreja do Senhor Jesus Cristo.
LÚCIFER: (Sátiro e cômico). Quero um lugar no teu sonho. Não adianta fugir, pois se fugires pegar-te-ei. (fica agachado). Trovão, forças das trevas, luz que não brilhou! (clamando) Não adianta orar e nem mesmo louvar. Igreja! Tu vais cair juntamente com o teu Senhor. (levanta-se e dança estranhamente). Sou o maior, sou o melhor, lá rá lá, o mundo é meu (pára bruscamente), sou tudo, mas todos “ainda” não são meus.
GRUPO: kyrie, Kyrie, Kyrie Eleison (2x).
LÚCIFER: Ah, Ah, Ah! (rir) Cantas para mim (fala com a igreja)? É claro que não. É para o teu Senhor, não é?
MULHER: Ó, meu Deus! Desde os tempos mais remotos tens guiado meus caminhos; entre pedras e espinhos tens guiado-me. És meu Deus, meu Mestre. Livra-me do mal.
LÚCIFER: Dá-me este teu filho, é tudo que quero ( A mulher sente dores).
(A mulher dá a luz e imediatamente o grupo que passa como peregrino no deserto leva o filho. A mulher acompanha os peregrinos).
LÚCIFER: Igreja: Nem tu, nem o teu filho consegui, porém, muitos já tenho em minhas mãos (sai).
MÚSICO: (Cantando e acompanhado por um instrumento. Representa a consciência). O céu escurece e as estrelas somem com as nuvens negras. A lua ficou vermelha de sangue, mas o sol, o sol ainda brilha no horizonte. Todos temos medo, João tem medo. João não sabe, mas tem muito medo. Medo da vida, medo da morte, medo da sua sorte, que sorte?! Durante dez primaveras, João sonha seus pesadelos cada vez mais mórbidos, cada vez mais vis. Tempo, onde estás? Onde escondeste a vida? O coração não pulsa. Ao menos tristeza sentisse. Ah! Onde estás alegria? (chora) Sou escravo do meu sonho e vassalo do meu leito. Meus pesadelos são meus guias, ano após ano, chuva de novembro, sol do outono. Vento? Vem, sopra em meus lábios sedentos de vida. Ao menos a morte levasse, mas quero viver. Vivo os meus sonhos ou será que os meus pesadelos vivem em mim? Não quero mais sonhar, não quero mais viver em meus pensamentos mortos, mas os meus sonhos é tudo o que tenho. Nem se quer nome tenho, mas existo e sonho meus pesadelos, e se eles sumirem ... (pausa) Então, morrerei.(sai)
SONHO: Ap 20.11-15.
(CENÁRIO: Um grande e alto trono branco. Usar projeção da sombra de uma pessoa. Os personagens estão deitados. Anjo e morte andam pela platéia).
VOZ: Eis o julgamento(abrem-se dois livros).
VOLTAIRE: (levanta-se) Sou o grande Voltaire, filósofo (assustado e curioso).
É um teísta verdadeiro, aquele que diz a Deus: “Eu te adoro e te sirvo” e ao turco, ao chinês, ao hindu e ao russo: “ Eu vos amo”... O teísta tem firme persuasão da existência de um ser supremo tão bom quanto poderoso, que formou todos os seres estendidos, perpetua suas espécies, castiga o crime sem crueldade e recompensa as nações nobres com sua liberalidade. O teísta não sabe como Deus castiga, ou como favorece e perdoa, e não é suficientemente impensado para lisonjear-se a si mesmo no sentido de imaginar que sabe como Deus age, mas que Deus age mesmo, e que ele é justo, ele sabe. As dificuldades que militam contra a idéia da providência não abalam sua fé, pois são meras dificuldades, e não demonstrações. É submisso à providência e acredita que se estenda a todos os lugares e séculos. Fazer o bem é a adoração à ele, e submeter-se a Deus é sua doutrina (sai).
(MÚSICA)
IMPERADOR INÁCIO: (levanta-se) Sabia que um dia haveria a prometida ressurreição, até mesmo para mim, o imperador Inácio. Imperador sim, mas também, pecador. Existe apenas um Deus, que fez os céus e a terra, e um senhor Jesus Cristo, cujo reino é a minha herança. Desde a Síria até Roma eu lutei contra feras selvagens que se mostravam tanto mais furiosas contra mim, quanto mais benefícios recebiam. Mesmo que me lancem ao fogo, me preguem na cruz, me cortem em pedaços, isso nada significa, se apenas me é dado estar com Jesus. Busco aquele que por nós morreu, ele é o meu galardão, que está reservado para mim. Que eu possa ser digno dos sofrimentos de meu Deus! Meu Senhor amado está crucificado, desejo ardentemente o pão de Deus, o corpo de Jesus Cristo. (sai).
(MÚSICA)
LESSING: (surpreso. Começa a falar deitado, depois levanta-se).
Es ist nicht zum bemerken das so viel zeit vergangen is, seit meinem Tod. Bin ich wirklich tod? Ja, ich meine (olha em sua volta), wahrscheinlich. Aber, was ist der tod weiter als eine einfache Reise?
Vielleicht eine Umwechslung von wether. (olha em sua volta). Und was von wether!
who ist der Thöefel oder Jesus? Der Goth who die Cristann so viel ertsselan und der Thöefel who die zhündiken an beten . Wharlicht ist Keine. Whol wen ich num tod bin, khent ich wartehn für mit ein Goth nun sein? Nih in mein leben war ich in solchen zweivel. Ja nun bin ich tod. Bah!!! Wie vilehn sachen hab ich ge macht für die Filosofi und Historia, und jetz bin ich alein,verleicht.Ich kahn mich denken en die Literature von meine Eltern.Deutchland! Von meine guthe hülfa in Theatro mit die schtöghe: Emilia Galloti;Minna von Barnhein und Natã der schlauer. Zum schloss, hab den Cadjismos betrieben , hab neue gedanken eingebracht für die zhündigehn glauben. Hir bin ich, aber who bleib ich? So werd ich Tol.(vai de um lado para o outro do palco). Nimant! Scheiss Drek! Ist Jemant hir? (gritando) Hörth jemant mir? (vai saindo chamando)
CALÍGULA: (LEVANTA-SE) Ai minha sensível coluna, como dói! Olha! Que lugar é este? Parece com uma das salas principais do meu palácio. Ah! Agora lembrei! Eu morri; estou morta, ou morto? Como queiram. Mas se estou morto, será que lembro de quando eu era vivo, de quando eu era o imperador Calígula. Olha! Já estou lembrando! (Faz um dos seus passos) Bom, vamos ver se lembro mesmo: Sou o imperador Calígula ou Botinhas, isto mesmo, era assim que meu avô, Tibérius, chamava-me: “Botinhas”(faz outro dos seus passos). Pois sou muito delicado. Certa vez, abusei um soldado romano e disse que ele era um traidor de sua pátria. Sabe o que ele disse em sua defesa? (com deboche) “Oh, majestade! Sempre fiu fiel e honesto ao Senhor”. Então, o condenei à morte, pois romano honesto é romano traidor, visto que em Roma não há honestidade. Ah, que saudade de meu garanhão, meu cavalo que nomeei cônsul de minha corte. Ele dormia em meus aposentos; ai que saudade do meu cavalinho. Também, sou filho do deus Apolo e do deus Júpter, assim, cristão bom, é cristão morto. Minhas escravas, onde estão? Venham, eu estou ordenando (saindo).
(MÚSICA E TROCA DE CENÁRIO PARA A SALA DA CÂMARA. JOÃO ACORDA).
JOÃO: (só tosse)
CIENTISTA IV: Espero que ele ainda tenha memória.
CIENTISTA I: Vai ter, pois estava sonhando.
JOÃO: ((Agoniza) Pai, mãe? Oh! Meu Deus ... Eu não sei ... (chora) Pedro? Meu Jesus Cristo o que ... (agoniza).
CIENTISTA II: Você está me ouvindo? (João chora)
CIENTISTA III: Está tudo bem. Você ouve? Responda.
JOÃO: Quero água. (vão buscar)
CIENTISTA IV: Como é seu nome?
JOÃO: João ... Filho de Deus.
CIENTISTA I: Como se sente, João? (entrega-lhe a água).
JOÃO: (Bebe, mas vomita) Jesus Cristo, onde ele está?... onde estou?
CIENTISTA II: Abra seus olhos. Está ouvindo João? Abra seus olhos.
JOÃO: Não suporto a luz.
CIENTISTA II: Diminuam a luz. Então João, vamos tentar novamente?
JOÃO: (Abre os olhos com dificuldade) Quem são vocês? O que fizeram comigo?
CIENTISTA III: Somos médicos. Como você está se sentindo?
JOÃO: Não sei... Não sinto minhas pernas. (os cientistas olham-se)
CIENTISTA I: As pernas vão ficar boas, mas quem é Pedro?
JOÃO: Meu amigo ... e meus pais, onnde estão?
CIENTISTA IV: Vamos sair daqui e explicaremos tudo para você na recuperação, vamos. (saem do palco e, alguns segundos depois, ouve-se, dos bastidores, muito choro e tristeza de João)
(MÚSICA TRISTE. João entra com a cabeça baixa e numa cadeira de rodas, pela platéia. Luzes apagadas e só um canhão de luz nele).
JOÃO: Os médicos contaram-me o que houve. Meus pais e amigos, quanta falta sinto deles, do carinho, amor e amizade. Obrigado. Não posso suportar a idéia de está sem meus pais (chora), é demais para mim saber que estão mortos. Ajuda-me, Senhor Jesus. Os médicos contaram o que houve, mas o que há agora, só eu sei. Sim, eu sei da profunda e imensa tristeza que passa pelo meu coração. Há uma enorme sensação de perda e solidão. Só eu sei. Mas apesar de todos estes pesadelos e melancolias que sinto agora, fui levado a saber, através dos meus sonhos, pelo meu Senhor e Salvador Jesus Cristo, que “Ele vive”! Que apesar das circunstâncias, por mais remota ou futura que seja a época, ele sempre vai está comigo. O senhor Jesus age em nós por muitas maneiras, em mim foi pelos meus sonhos. Muitas coisas nos meus sonhos não entendi, mas tenho certeza e estou convicto de que o primordial e mais importante, entendi, que o meu salvador morreu por mim e agora está vivo. E reina graças ao meu Senhor, estou vivo. Sei que não mereço estar vivo. Obrigado meu Salvador! Estou vivo e quero viver. Vivo, viver ... Tenho tempo de viver, louvar e agradecer. É tempo ... Meu Pai, minha Mãe que saudade, quanto amor, que tristeza, Meu Senhor ... Obrigado!
(Uma pessoa leva João, na cadeira, embora pela platéia. Música).
fim