O ENCONTRO DE DUAS MULTIDÕES
Sl 30 / 1Rs 17.17-24 / (1Co 15.51-58) / Lc 7.11-17
Quando acontece um jogo importante de futebol, uma final de campeonato, há muita emoção rolando no ar, tanto da parte dos jogadores e comissão técnica, bem como da parte das torcidas. A galera vibra, grita, se desespera... empurra o time com palavras de ordem... se cala diante do triunfo do adversário em alguma jogadas decisivas. Geralmente as torcidas são compostas de duas multidões... dois times e duas torcidas. Chegam com muita expectativa ao estádio. Uma sai feliz, alegre, vibrando. A outra sai quieta, triste, desanimada.
No texto do evangelho de hoje também há duas multidões. A primeira acompanhava Jesus. Estava alegre, eufórica, feliz da vida... mas porque? Antes de ir até a cidade de Naim, onde aconteceu o trecho que lemos hoje, Jesus esteve na região de Cafarnaum. Lá ele curou o empregado de um oficial romano. Aquele milagre foi bombástico. A multidão seguia Jesus por causa dos seus milagres, também pelo seu ensino. A sua pregação era impactante e evangélica... e atraía as multidões. A multidão que acompanhava Jesus estava contagiada pela alegria e até mesmo espantada com tanta coisa boa acontecendo. Era como a torcida do time vencedor.
A segunda multidão estava saindo triste da cidade, quieta, acompanhando lentamente a dor de uma mãe, viúva, que havia perdido o seu único filho. Quem já participou de um velório sabe o clima de tristeza e desânimo que paira no ar. Quando chega a hora de fechar o caixão, o último adeus àquela pessoa que tanto amamos é um momento de dor, talvez até de desespero. A família sempre é muito importante nestas horas. Um filho que abraça a mãe na perda do pai, os pais que se abraçam na perda de um filho... sempre é consolo o apoio da família, ainda que não digam nada... mas a presença naquele momento faz toda a diferença.
Porém, aquela viúva da cidade de Naim não tinha família para apoiá-la. A única família que tinha era o seu filho morto, seu único filho. Já havia perdido o marido. Talvez o filho a tivesse ajudado a superar a perda do marido. Agora também o filho tão querido havia partido. E mais, naquela época não havia previdência social ou pensão para ajudar os mais idosos e as viúvas. Pela regra deviam ser sustentados por seus filhos homens. Por isso, junto com o seu filho tão querido aquela viúva estava vendo ir embora até mesmo o pão de cada dia, o seu sustento. Muitas viúvas viviam como mendigas, dependendo da caridade e de esmolas.
Esta segunda multidão está triste e quieta como a torcida do time perdedor, porque sabe de toda a situação. São moradores da mesma vila onde morava aquela família destruída pela morte. Conheciam a dor e a carência da viúva. Nada mais podiam fazer naquele momento a não ser acompanhar todo o sofrimento. Quantas vezes nós não nos sentimos como a viúva, ou talvez como alguém na multidão que seguia aquela pobre senhora. Os problemas do dia a dia vão se somando e deixando a gente cada vez mais triste... sem solução. Já não bastam as dificuldades de relacionamento dentro de casa, ainda há a instabilidade no emprego, o salário que muitas vezes é curto para tantas contas... ainda há a crise mundial nas bolsas, o vazamento de petróleo... tudo isso é como uma bola de neve correndo para o caos completo. E quando menos se espera a morte chega na família da gente. A morte acaba com a minha própria vida sem aviso prévio. E entra aquela velha e famosa pergunta: pra onde vamos? Acaba tudo aqui? A vida se resume a isso: nascer, crescer, morrer?
As duas multidões se encontraram perto do portão da cidade. Um choque de sentimentos. Mais ou menos como duas torcidas que se encontram no caminho, mas sem quebra-quebra, sem flauta tocada em cima dos que perderam. Jesus olhou para a mulher, viu o seu sofrimento, teve compaixão dela, sentiu a dor que ela estava sentido e disse: Não chore. As duas multidões deviam estar num silêncio profundo, aguardando o que iria acontecer. Jesus surpreende e toca o caixão. Os judeus não podiam tocar nos mortos, era sinônimo de impureza. Quem tinha que fazer o serviço precisava passar por todo um processo de purificação. Jesus toca aquele corpo sem vida para lhe restituir a vida. É milagre de Deus. “Moço, eu ordeno a você, levante-se”. Esse “levante-se”, na língua original da Bíblia, é um verbo passivo, o que indica que a ação não poderia ser feita pelo jovem que estava morto. A ação é de Deus, trazendo vida a um corpo que já não a tinha mais.
Jesus foi motivado pelo sentimento de misericórdia e compaixão ao ver a dor daquela mãe. A intenção de Jesus não é mostrar o seu poder, embora este milagre tenha causado também grande repercussão e muito provavelmente grande número de pessoas veio a crer em Cristo através daquele ato. O maior milagre nisto tudo é denunciado no versículo 16, quando as multidões exclamam: “Deus veio salvar o seu povo!” Naquele momento as multidões confessaram: “de fato Deus está entre nós, ele veio para nos salvar”. A fé estava criada nos corações. Com um ato de amor e compaixão, bem particular na vida daquela viúva, Jesus também opera fé nos corações de muitas pessoas, ainda hoje também, quando ouvimos estas histórias a seu respeito.
O óbvio nas leituras deste domingo é a vitória de Deus sobre a morte. Entretanto, podemos fugir um pouco do óbvio e direcionar nossa atenção para outro tema nas leituras: Deus se “contamina” por amor a nós. Ele não somente toca em um caixão, mas torna-se ‘cadáver’ que é sepultado às pressas, sem um velório decente. Tudo isso por amor a toda humanidade e a cada pessoa na sua singularidade.
Na leitura do AT, vemos um profeta “tocar o cadáver de um gentio” para trazê-lo de volta à vida, por meio do poder de Deus. Este é o mesmo profeta que foi alimentado por corvos, “aves impuras”, e comeu pão preparado por “mãos gentias” (viúva de Sarepta). Mas, Jesus afirma em outra passagem da Bíblia que na época de Elias essas “mãos gentias” foram as únicas a abraçar um filho ressuscitado.
Ao se “contaminar” por nós, Cristo mostra seu amor e produz o maior milagre de todos: a fé de que Sua “contaminação” traz vida e nos “purifica” de todo o pecado. É um paradoxo maravilhoso! Pelo evangelho de Cristo somos capacitados a nos “contaminarmos” para anunciar salvação a todos. Somos chamados e capacitados a buscar o contato com o diferente. Anunciar salvação aos que consideramos excluídos. Tudo isso, só pelo poder e dependência de Deus, que usa o ser humano “justo e pecador ao mesmo tempo” para anunciar a “contaminação” que salva e purifica.
O poder de Deus está explícito nos textos de hoje. Ele se compadece do sofrimento de pessoas simples como eu e você. Ele vai além do que se espera, e se “contamina” a fim de restaurar a alegria e a paz. Ele mostra que tem poder até mesmo sobre a morte, ressuscitando o filho da viúva de Sarepta no AT e o filho da viúva de Naim, no NT. Pela graça e amor de Deus nós, que por natureza pertencemos à multidão triste que acompanhava o cortejo, fomos acrescentados na multidão alegre e exultante que acompanhava Jesus. Pelo Batismo fomos enxertados em Cristo e na Santa Ceia, festejamos com toda a Igreja, de todos os tempos, esta união; celebramos e somos fortalecidos pelo alimento do corpo e sangue de Jesus.
No último dia também acontecerá um encontro de duas torcidas, duas multidões. Mas duas torcidas que “torceram pelo mesmo time”, e estavam separadas apenas pela linha do tempo. Toda a Igreja da terra (Igreja Militante) se juntará com toda a Igreja do Céu (Igreja Triunfante) para celebrar a grande vitória do nosso Deus. Uma vitória sem fim, sobre o pecado, a morte e o poder das forças do Mal. Podemos ficar alegres, porque esta vitória já é certa, pela obra de Cristo. Amém.
Marcos Weide