PEDRO, O TEMPERAMENTAL
Pedro o temperamental: Será que o apóstolo foi mesmo temperamental, alguém que agia por impulsos e pelo temperamento forte? Se foi, quais as lições que podemos tirar de sua vida?
Cremos que a primeira resposta mais imediata é a de que Deus usa quem quer e como quer, independente do temperamento de cada um. Afinal, nem todos somos iguais, e nem todos os discípulos o foram.
A segunda resposta que encontramos, é que Deus molda o temperamento daqueles que o servem, mediante a ação do Espírito Santo. É bem verdade que Deus respeita a nassa natureza, pois foi assim que ele nos criou, mas o crente fiel, deixa-se trabalhar pelo Espírito Santo, e isso aconteceu com Simão Pedro. Veja o que Jesus disse acerca deste homem duro como uma pedra e extremamente independente nas suas decisões, lendo João 21.18. Não resta dúvida que Pedro foi a maior liderança entre os discípulos antes da morte de Jesus e depois da sua assunção, entre os apóstolos, e não poderíamos deixar de atentar sobre o fato de que nenhum outro apóstolo reuniu tantas virtudes e tantos defeitos, sendo ao mesmo tempo alvo de tantos louvores e de tantas repreensões. Cada um de nós encontra muito de Simão Pedro em si mesmo. Somos cheios de altos e baixos, mas quem pensaria que um humilde pescador seria ministro de uma fé, que nem o poderoso império romano apagaria.
QUEM FOI PEDRO?
Seu nome era Simão e o nome de seu pai era Jonas (Mt 16.17) a sua família era da cidade de Betsaida (Jo 1.44), e parece que era sócio na indústria de pesca de Tiago e João, filhos de Zebedeu. (Lc 5.10). Sua conversão se deu através de seu irmão André, e conforme o Evangelho de João (Jo 1.41,42), quando o Senhor o encontra lhe dá o apelido de “Pedro”, ou “pedra”(provavelmente Jesus utilizou a forma aramaica kefá aportuguesado Cefas, antecipando a sua liderança, seu temperamento duro e a sua estatura, que viria a compor a fundação da Igreja, firmada na Rocha inabalável que é Cristo, na qual ele, Pedro, seria uma pedrinha e que desejou ardentemente, em sua epístola, escrita posteriormente, que fossemos pedras vivas, como ele: “vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo.” (1Pe2.5)
2. A LIDERANÇA DE PEDRO:
O que não entendia direito na transfiguração (Mt 17.1-9), dormindo acintosamente na agonia de Jesus (Mt 26.37-40) ou prometendo fidelidade absoluta ao Mestre e logo a seguir negando-o veementemente (Mt 16 e 26.69-75). Poderíamos lembrar também de que foi Pedro quem ousou pedir ao Mestre que andasse sobre as águas (Mt 14), mas logo afundou, revelando sua inconstância. Lembramos também o mesmo Pedro com seu temperamento potente, com ardor e fé, resguardando a igreja de um dos períodos mais difíceis e iniciais, sob risco de desintegração com o movimento legalista que soprou sobre a Igreja nos seus primórdios (veja Atos 15.14-22).
ALGUNS PONTOS DO CARÁTER DE PEDRO
Era um líder nato. Exercia a liderança verdadeira, isto é, influenciava pessoas. Influenciar não é mandar, mas conduzir, e por isso foi convidado por Jesus a cuidar do Seu rebanho (João 21.15ss).
Era determinado. Logo no início da igreja, quando a perseguição veio, o mesmo homem que negara ao Senhor, três vezes, agora diz veementemente: “Importa obedecer a Deus do que aos homens”, ainda que isso pusesse sua vida em risco (At 5.29).
Era um bom orador. Falava sempre, e talvez por isso errasse tanto. (Mt 16.13-23), pois assim como no seu muito falar deu uma bela declaração acerca do Senhor Jesus, todavia, permitiu também que sua boca fosse usada pelo diabo: “Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas coisas que são de Deus, mas sim nas que sãos dos homens”. (Mt 16.23).
Convém aqui mencionar o que alguns provérbios dizem sobre a arte de falar no tempo certo:
É preciso coragem para levantar e falar, mas também é preciso coragem para sentar e ouvir. (desconhecido).
Todos os homens se enganam, mas só os grandes homens reconhecem que se enganaram. (Fontenelle)
O mais valioso de todos os talentos é aquele de nunca usar duas palavras quando uma basta. (Thomas Jefferson)
O silêncio é um dos argumentos mais difíceis de refutar. (Josh Billings)
O exercício do silêncio é tão importante quanto a pratica da palavra. (William James)
Arrependo-me muitas vezes de ter falado; nunca de ter silenciado. (Ciro)
É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é tolo, do que falar e acabar com a dúvida. (Abraham Lincoln)
Ao dizer alguma coisa, cuide para que suas palavras não sejam piores que o seu silêncio. (Anônimo).
Até o tolo, estando calado, é tido por sábio; e o que cerra os seus lábios, por entendido. (Pv 17.28)
Tenhamos, pois, cuidado no nosso falar precipitado.
Vejamos outras características do temperamento descuidado do apóstolo:
Foi presunçoso ao afirmar que todos abandonariam o Mestre, menos ele: “Mas Pedro, respondendo, disse-lhe: Ainda que todos se escandalizem de ti, eu nunca me escandalizarei”. (Mt 26.33)
Foi orgulhoso, mas rápido em corrigir-se, quando Jesus ofereceu-se para lavar-lhe os pés. (Jo 13.8).
Foi impetuoso ao arrancar a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote quando foram prender Jesus. Perceba que a intenção dele, possivelmente, era degolar o indivíduo, mas como não era homem hábil de espada e sim de pescaria, não soube manejar uma de quase vinte quilos, e por isso, arrancou-lhe apenas a orelha. (Jo 18.10).
Foi insensível ao deixar Jesus agonizar sozinho no Jardim do Getsemani (Mt 26.40).
Foi medroso ao negar conhecer Jesus, ante o medo de ser incriminado com ele (Lc 22.54-62).
Conclusão: O QUE PEDRO NOS ENSINA?
a) Ele foi um cristão autêntico, e precisamos de líderes autênticos que, a semelhança de Pedro possamos usar o nosso temperamento, moldado pelo Espírito Santo, para ser usado por Deus. Quando o Senhor lhe diz que quando fosse mais velho, seria mudado, também revela que Deus usaria a sua impetuosidade para determinados fins.
b) Ele foi um homem autêntico, que reconheceu o seu desvio quando negou a jesus e tornou-se uma grande testemunha do cristianismo. Segundo a história eclesiástica, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, porque não queria ser crucificado com seu Senhor.
c) Pedro revela que o líder não deve se esconder, mas mostrando a sua fragilidade, não tentar enganar as pessoas acerca de uma falsa imagem. “Quanto a isso gostaríamos de refletir sobre a humanidade de um líder cristão, sobretudo de nós pastores: Portanto, resumidamente, eu diria que quanto mais verdadeira for a espiritualidade de um cristão, mais humano ele se mostrará. O que passar disso não foi ensinado por Jesus e muito menos pelos seus apóstolos”.
Os líderes não se “abrem” na hora do “sufoco” por muitas razões:
1. Pela falácia vendida por muitos deles mesmos que em Cristo não teremos mais aflições. Especialmente depois da Teologia da Prosperidade, pois, em algumas de suas versões, até mesmo a doença do líder é escondida. Afinal, eles crêem que se oram e Deus... a cura deve acontecer porque o poder se aperfeiçoa na fortaleza deles... e não na fraqueza... como era a convicção de Paulo. Assim, a Glória não vai nunca para Deus, mas sempre para eles.
2. Não se abrem também porque não confiam em ninguém. Os “colegas” desprestigiam a dor de um líder que a expressa. “Está em crise” – é o que dizem. Então, ficam todos silenciosamente em crise... até que “explodem”.
3. Porque o líder oferece a si mesmo como o modelo do rebanho – não como a Palavra ensina: em moderação, mansidão, brandura e exemplo de vida mansa e serena na Graça! Ora, negando que ser “modelo do rebanho seja isso” eles instituem seus supostos super-poderes como referência auto-glorificante. Desse modo, o “modelo” do rebanho não é um homem, mas uma espécie de super homem.
Pedro tinha defeitos, era temperamental, mas veja o que o Senhor falou-lhe na sua sinceridade: “Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas”. (João 21.17). Podemos dizer que esta tríplice afirmação de Pedro repara publicamente a sua tríplice negação, conforme Jo 18.15-27?
Deus não exige de homens que já estejam prontos e acabados, mas busca aqueles que se deixam trabalhar por Ele. Aprendamos com Pedro, o temperamental.