TIAGO, O AMBICIOSO
INTRODUÇÃO:
Muitos advogam que, se o fim é lícito e bom, os meios para alcançá-lo são justificados pela razão final. Com esse raciocínio, há os que torcem leis e normas, alegando que ter vontade de vencer é coisa boa e que tais meios são justificados pelos fins úteis e bons que são buscados.
Não há dúvida que a princípio este raciocínio parece lícito e válido e que, em conseqüência, não chega a incorrer em erro. É preciso muito cuidado nesta direção, porque a afirmativa de que os fins justificam os meios é maligna.
Vamos estudar, agora, a vida de Tiago, irmão de João, examinando o seu caráter e o modo como o Senhor falou com ele.
1.Vários Tiagos
Há vários servos de Deus que estiveram com Jesus e que acompanharam pessoalmente o Seu ministério, distinguindo-se pelas suas atitudes claras ao lado do Salvador. Três deles, com o nome de Tiago merecem ser mencionados.
O primeiro Tiago era um pescador, filho de Zebedeu e irmão de João. Jesus o chamou para ser apóstolo, ao lado de seu irmão: Mt 4.21. Uma observação interessante é poder-se afirmar que Jesus tinha uma preferência por ele, pois, no momento da transfiguração, quem estava presente? Pedro, Tiago e João! Os dois últimos receberam o apelido de Boanerges, que significa “filhos do trovão”. Um fato curioso é que ele e seu irmão João, sob a tutela da mãe, foram pedir a Jesus para que, no Reino, um se sentasse à Sua direita e o outro à Sua esquerda... (Mt20.2-21)
O segundo Tiago também era apóstolo. Era chamado de Tiago, o Menor, filho de Alfeu e de Maria. Ele é mencionado quatro vezes no Novo Testamento: Mt 10.3, Mc 3.18, Lc 6.15 e At 1.13. Alguns afirmam que ele era irmão de Mateus. Afirma-se que ele pertencia à tribo de Gade e que por ter pregado o Evangelho de Cristo foi apedrejado pelos judeus e sepultado em um santuário de Jerusalém.
O terceiro Tiago era irmão de Jesus, como José, Simão e Judas. Nota-se que eles não aceitavam a divindade de Cristo, nem aceitavam a sua autoridade. Possivelmente fosse essa uma das razões que levava Jesus a estar tão pouco com a sua família, exceto sua mãe. Todavia, depois da ressurreição, quando Jesus lhe apareceu e lhe falou, então esse terceiro Tiago tornou-se um grande líder e chegou a ser o pastor titular da Igreja em Jerusalém. Parece até que foi ele quem presidiu o primeiro concílio que foi convocado para resolver a questão da admissão de gentios incircuncisos nas igrejas. Esse terceiro Tiago é apontado como o autor da epístola que encontramos no Novo Testamento.
Entre os vários personagens com o nome de Tiago, citamos acima os três principais, mas o nosso propósito neste momento é estudar o primeiro Tiago aqui apresentado, filho de Zebedeu. E esse estudo irá focalizar o seu declarado desejo de projetar-se, de ser o principal, de estar à frente dos outros, como aliás acontece com quase todos nós.
2. TIAGO, O AMBICIOSO
Em Mt 20.20-28; e Mc 10.35-45, descreve-se o pedido de Tiago e João. No texto de Mateus, nos versículos 20 a 22 lemos:
“Então a mãe dos filhos de Zebedeu chegou com os seus filhos perto de Jesus, curvou-se e pediu a ele um favor. – O que é que você quer? – perguntou Jesus. Ela respondeu: – Prometa que, quando o Senhor se tornar Rei, estes meus dois filhos sentarão à sua direita e à sua esquerda. Jesus disse aos dois filhos dela: – Vocês não sabem o que estão pedindo...”
No evangelho de Marcos, o pedido aparece apresentando diretamente pelos dois filhos, mas, no Evangelho de Mateus, a petição tem o reforço da mãe presente. Com ou sem reforço o caso é que Tiago e João foram a Jesus pedir distinção e superioridade. Queriam estar acima dos outros dez... Como, neste momento nos propomos a estudar o caráter de Tiago, deixemos o caso de João e demais discípulos.
3. Ambição
Vamos condenar Tiago com seu irmão? Vamos estabelecer que Tiago errou e que não devia ter tal atitude?
Estas são boas perguntas... Onde é que a Bíblia condena a vontade de progredir ou de crescer? Há muita gente falando em igualdade e condenando os que lutam por subir de posição ou por conquistar mais recursos. Não há igualdade no céu. O Pai está no Seu trono assentado e reinando, Jesus falava com Ele mas reconhecia nEle uma soberania tal que a Jesus só cabia obedecer. Nas vésperas da crucificação, ele pedia dramaticamente no lugar chamado Getsêmani (Mt 26.39):
“ – Meu Pai: se é possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como Eu quero, e, sim, como Tu queres.” Orou três vezes e, vendo que o Pai não O atendia, encerrou seus pedidos com as palavras: “... se não é possível passar de Mim este cálice, sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade.” E Jesus morreu na cruz, cumprindo a vontade do Pai.
Nada está escrito que impeça você de pedir e ter vontade de progredir. No céu há hierarquia (galardão) com se vê, e depois da Segunda Vinda de Cristo, ela vai continuar.
Desde que a “ambição” não tenha o sentido de orgulho, cobiça ou egoísmo, a vontade de realizar, de progredir é perfeitamente natural e não pode ser impedida. Os pais devem estimular os filhos a querer progredir e a não contentar-se com a mesmice... Nisto se inclui especialmente o crescimento espiritual, procurai pois progredir no Reino de Deus. A “ambição” espiritual é boa, desde que não seja motivada pelo orgulho, pela cobiça ou egoísmo, como dissemos acima. Mas o desejo de crescer material e espiritualmente deve visar o crescimento do Reino de Deus também.
Vale a pena subir a escada, vale a pena enfrentar a estrada que vai às alturas, vale a pena vencer as batalhas da vida, pois doce é a vitória ao paladar.
4. CONCLUSÃO:
O pedido de Tiago, ao lado de João, à primeira vista pode parecer uma pretensão má e descabida, pois dá a idéia de querer supremacia e domínio sobre seus pares. Toda intenção de vencer a qualquer preço é má e não vem de Deus, mas o desejo de crescer e prosperar sob a orientação do céu é sintoma de quem não quer ficar estagnado no mesmo lugar, sem avançar para alvos que certamente estão adiante, como desafios a serem vencidos.
Alguém pode perguntar se a intenção de Tiago e João, ou da mãe deles, era mesmo boa, isto é, se ela tinha apenas o desejo de prosperar e galgar mais um degrau rumo ao Reino de Jesus ou se era orgulho, cobiça e vaidade. A Bíblia não entre neste assunto e, a partir disto, Jesus não censura o pedido e diz apenas que Tiago não sabia direito o que estava pedindo. Acrescenta que caberia ao Pai dar este direito ou estabelecer esta distinção no momento oportuno:
“... mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai.” (Mt 20.23).
Pelo que se vê, alguém estará nessas posições, mas não estava na hora de defini-las, nem era o momento próprio para o pleito. Vale a pena ter ideais. É importante olhar para frente, na estrada da vida, e, ainda que haja subidas íngremes, tentar vencê-las, ou se dirá melhor: vencê-las com o auxílio de quem realmente e somente pode ajudar; JESUS. Precisamos estabelecer alvos, metas para nossas vidas.
O cristão precisa buscar o reino de Deus e a sua justiça, para que assim todas outras coisas lhes sejam acrescentadas. Podemos e devemos objetivar o crescimento e o bem estar material, mas o essencial é querer progredir no Reino de Jesus, como Tiago e seu irmão quiseram.