DESCENSUS AD INFEROS
Monografia apresentada à Faculdade
de Teologia do Seminário Concórdia,
São Leopoldo, em cumprimento
dos requisitos ao grau de
Bacharel em Teologia
por
Flávio Sonntag
Novembro, 1997
Aprovada por:_______________________
Prof.: Acir Raymann
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.....................................................................................................................
1. ANÁLISE EXEGÉTICA DE 1PEDRO 3:18-20;4:6........................................................
1.1. Contexto......................................................................................................................
1.2. Texto:...........................................................................................................................
1.3. Variantes:.....................................................................................................................
1.4. Tradução:.....................................................................................................................
1.5. Análise Textual e Teológica.........................................................................................
1.5.1. Versículo 18..........................................................................................................
1.5.2. Versículo 19........................................................................................................
1.5.3. Versículo 20........................................................................................................
1.5.4. I Pedro 4:6..........................................................................................................
2. ANÁLISE HISTÓRICA..................................................................................................
2.1. A Inclusão da Doutrina nos Símbolos Ecumênicos...................................................
2.2. A Doutrina nos Escritos de Lutero............................................................................
2.3. A Doutrina nas Confissões Luteranas........................................................................
CONCLUSÃO.....................................................................................................................
BIBLIOGRAFIA.................................................................................................................
A descida de Cristo ao inferno é ensinada como doutrina e confessada como artigo de fé pela Igreja Cristã desde os primeiros séculos. Apesar disso, ainda hoje se lançam muitas questões e dúvidas à respeito da sua fundamentação bíblica e da falta de detalhes mais claros. A frase “Ele desceu ao inferno” talvez não seja bem compreendida pela maioria daqueles que a cada domingo confessam sua fé cristã nas palavras do Credo Apostólico.
A partir desta incompreensão, surgem questionamentos que, muitas vezes, não podem ser solucionadas à luz das Escrituras. Então, quando se tenta responder a todos eles de uma forma racional, ou partindo de uma hermenêutica falha, surgem os problemas, agora um pouco mais sérios e prejudiciais.
A doutrina da descida de Cristo ao inferno, não é, em si mesma, fundamental. Isto não significa que possa ser desconsiderada e dispensada como se não fosse necessária e importante. Ela só não é fundamental no sentido de ser objeto da fé salvadora. Agora, aquele que despreza a doutrina acaba por negar tanto a autoridade divina, como a perfeição das Escrituras Sagradas.
Neste trabalho monográfico, procuramos apresentar as possíveis respostas para alguns dos questionamentos que, inevitavelmente, surgem ao se analisar esta importante parte da obra de Cristo. Estas respostas, como não poderia deixar de ser, pretendemos encontrá-las, quando possível, naquilo que Deus, por sua graça, nos revelou em sua Palavra.
Para tanto, nos deteremos mais intensamente naquela que é considerada a sedes doctrinae da descida de Cristo ao inferno, I Pedro 3:18-20. Além desta perícope, ainda analisamos I Pedro 4:6, que é considerada por muitos como um complemento e acréscimo nas informações contidas em 3:18-20. Além disso, as passagens que servem de apoio à doutrina serão oportunamente avaliadas.
Ao lado desta análise textual, pretendemos traçar uma rápida pesquisa histórica da doutrina. Delimitamos esta pesquisa ao período inicial, e ao processo de inclusão da doutrina nos Símbolos Ecumênicos, com maior ênfase no Credo Apostólico.
De modo geral, a inclusão da doutrina no Credo Apostólico tem condicionado de várias maneiras a interpretação da passagem de I Pedro, sendo o texto lido, de forma consciente ou não, à luz do Credo. Este fato delimita a interpretação em dois aspectos: em primeiro lugar, que o “foi” de I Pe 3:19, significa “desceu”, e que o lugar para o qual Cristo foi é o “inferno”; em segundo, cronologicamente isso se deu entre a morte e a ressurreição (entre a sexta-feira santa e a Páscoa). Em nossa exegese procuramos não partir destes pressupostos, embora isto seja quase impossível, e chegar as conclusões que o texto apresenta. Usaremos, quando for o caso, textos de apoio que possam confirmar a seqüência estabelecida no Credo.
Por fim, apontaremos a posição de Lutero, com sua interpretação por vezes contestada, e reafirmaremos o ensino das Confissões Luteranas com respeito à doutrina em questão.
A primeira epístola de Pedro foi escrita, provavelmente, entre a morte de Tiago (62 A.D.) e a morte do próprio apóstolo, causada pelo martírio e perseguição aos cristãos promovidos pelo Imperador Nero, em 67 A.D.[1] Era uma época muito conturbada, quando a Igreja Cristã era acusada e sofria perseguição.
Esta situação de conflito fica clara no próprio texto da carta. Em 1.6, diz-se dos leitores que, no presente, são “contristados por várias provações”. Logo em 2.12 se diz que os “gentios” falam dos crentes “como de malfeitores”. Em 2.20 os “servos” entre eles são “esbofeteados e afligidos”. O versículo 3.14 supõe ameaças contra os cristãos, que os deixam alarmados. Em 3.16 se repete que “estão falando contra vós outros”, havendo aqueles que “difamam” o nome dos cristãos; em 3.17 e 4.4 volta-se a fazer menção ao sofrimento. O trecho que mais claramente retrata os conflitos e sofrimentos é 4.12-19, falando de um “fogo ardente” que passa entre eles, fazendo-os sofrer. Em 5.9, este sofrimento aparece como sendo experimentado pelos outros cristãos espalhados pelo mundo.[2]
Esta perseguição aos cristãos não era ainda aquela que se deu por decreto, estendendo a proscrição do cristianismo por todo o Império Romano, pois Pedro continuava falando do governo como protetor ( 2.13-17; 3.13). A perseguição nesta época assumira a forma de acusações caluniosas, ostracismo social, levantes populares e ações policiais localizadas.[3]
A questão dos destinatários parece, à primeira vista, bastante clara. No primeiro versículo da carta, Pedro diz que a envia “aos eleitos que são forasteiros da Dispersão, no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia, e Bitínia”. São comunidades cristãs, gente que passou pela experiência de um “novo nascimento” pela fé em Jesus Cristo ( 1.3,23), e que está ligada ao seu recebimento do evangelho que lhes fora pregado (1.12,22,25). Isto marcou uma ruptura em suas vidas, uma vez que a maioria deles era de origem gentílica ( 1.14 : Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância). Agora se pode falar de um “outrora sem Cristo” e de um “mas agora...com Cristo”. Isto não exclui o fato de que uma parte deles eram judeus de origem. Trata-se então de uma comunidade mista, com a predominância de não-judeus.[4]
Além dos problemas externos, dos quais falamos acima (perseguições, difamações, martírio), existiam também os problemas internos nas comunidades. Pedro fala de inveja, hipocrisia, problemas de relacionamento dentro do próprio grupo de cristãos. Isto se reflete em passagens como 2.1; 1.14; 2.11; 4.2; 5.2,3,5. Esta influência do velho homem poderia por em risco a integridade moral e espiritual, o bom nome e a vida comum da família cristã.
Em razão de tais problemas que enfrentavam os cristãos da Dispersão, Pedro procura confortá-los, animá-los e fortalecê-los nesta caminhada e novo estilo de vida. O apóstolo aponta para o exemplo e modelo de Cristo para os cristãos diante do sofrimento e morte injusta.
Em 2.21-25, os trabalhadores são instados a olharem para o Seu exemplo (21). Quando ultrajado e maltratado, Ele não revidava, mas entregava-se a Deus, que julgava retamente ( 23). De fato, Cristo foi ainda mais longe. Seu sofrimento deu-se por amor, por amor àqueles que O fizeram sofrer. Ele assumiu sobre Si o pecado deles (24). Em 3.18 isto é dito novamente, e em 4.1 extrai-se daí um princípio geral para todos: “armai-vos do mesmo pensamento que Cristo teve”.[5]
A carta foi escrita sob a perspectiva da proximidade da segunda vinda de Cristo, para a consumação dos tempos. Os leitores são exortados a fazerem desta esperança e perspectiva escatológica a sua perspectiva de vida. Grandes coisas Deus tem reservado para os seus quando Cristo se revelar. I Pedro 1.4,5: “herança...reservada no céu para vós outros, que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para salvação preparada para revelar-se no último tempo”. Em vista disto os sofrimentos, provações e tristezas se dão por breve tempo (1.6). A expectativa do encontro com o Senhor deve reger a vida dos crentes (1.14-17). O que os distingue dos ímpios é a esperança que os move e que transforma o modo como vêem a vida e o mundo ( 3.15).
Em 3.22 é dito que Cristo está a direita de Deus, exaltado no céu, e está para manifestar-se em glória neste mundo (1.5; 1.13; 4.13). Isto deve causar-lhes alegria, consolando-os e dando-lhes esperança na vida eterna. Pois uma vez que Cristo também sofreu injustamente, morreu e ressuscitou dos mortos, e está vivo, em glória junto ao Pai, assim os cristãos também serão vivificados se permanecerem nesta fé. Sobre a esperança que os cristãos podem ter em meio ao sofrimento, escreve Pieper:
Christians are admonished in 1 Peter 3 and 4 patiently to bear in this life (sarki,) the suffering and calumny heaped on them by the unbelieving world in expectation of God’s righteous Judgement, which shall come upon all unbelievers and blasphemers of His Church on Judgement Day (cf. 3:14-4:7). This admonition to patient suffering is made the more impressive by the example of Christ, for whom, too, the earthly life was a time of suffering, but who promptly, at His quickening in the sepulcher, appeared before the spirits in prison as the Judge and who at the end of the world will appear as the Judge of the quick and the dead.[6]
1Pe 3.18 o[ti kai. Cristo.j a[pax peri. a`martiw/n e;paqen( di,kaioj u`pe.r avdi,kwn( i[na u`ma/j prosaga,gh| tw/| qew/|( qanatwqei.j me.n sarki. zw|opoihqei.j de. pneu,mati\
19 evn w-| kai. toi/j evn fulakh/| pneu,masin poreuqei.j evkh,ruxen(
20 avpeiqh,sasi,n pote o[te avpexede,ceto h` tou/ qeou/ makroqumi,a evn h`me,raij Nw/e kataskeuazome,nhj kibwtou/( eivj h]n ovli,goi( tou/tV e;stin ovktw. yucai,( diesw,qhsan diV u[datoj)
1Pe 4.6 eivj tou/to ga.r kai. nekroi/j euvhggeli,sqh i[na kriqw/si me.n kata. avnqrw,pouj sarki. zw/si de. kata. qeo.n pneu,mati)[7]
Serão consideradas e avaliadas as variantes mais significativas que são apresentadas em alguns manuscritos, e que podem trazer uma luz adicional na compreensão do texto. Uma análise mais detalhada será feita no transcorrer deste trabalho.
No versículo 18, temos uma variante relevante:
Os manuscritos vgst.ww ; Cyp ; C *vid pc z vgcl sy;p Cl latAug ; substituem o verbo e;paqen por apeqanen . Ambos podem ser aceitos sem que com isso se mude o sentido do texto. e;paqen é mais abrangente pois se refere tanto à paixão quanto à morte de Cristo , e isso está mais de acordo com o contexto, que trata do sofrimento, perseguição e morte dos cristãos e sua imitação de Cristo. O verbo já vinha sendo usado pelo apóstolo, por exemplo em 2.21, em uma frase paralela. Por esta razão optamos por evvpaqen, apoiados pelos bons manuscritos B, P e M.
A forma peri. a`martiw/n e'paqen é a preferida, por que este verbo é um dos favoritos do apóstolo Pedro, que o usa por várias vezes na sua primeira carta, por exemplo em I Pedro 1.11; 4.13; 5.1; 5.9. Além disso, o verbo leva adiante o pensamento do versículo dezessete.[8]
No versículo 19, fulakh/ é substituído por tw adh em 614pc e Ambst. Esta variante é rejeitada por não ter sustentação suficiente nos manuscritos mais importantes, os quais apresentam filakh//.
3.18: Porque também Cristo, de uma vez por todas, sofreu pelos pecados; o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus; morto , sim, na carne, mas vivificado no espírito,
3.19: no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão,
3.20: os quais foram desobedientes em outro tempo, quando esperava a longanimidade de Deus nos dias de Noé, enquanto era construída a arca, na qual poucos, isto é, oito pessoas, foram salvos através da água.
4.6: Pois, para isso também, aos mortos foi anunciado o evangelho, para que, mesmo julgados segundo homens na carne, vivam segundo Deus no espírito.
o[ti kai. Cristo.j - Esta preposição conecta a perícope não só ao versículo dezessete, mas à toda secção precedente, os versículos treze a dezessete. Formalmente, o início deste novo trecho é literalmente igual ao trecho 2.21-25, sublinhando assim a identidade entre as duas passagens, bem como seu papel semelhante dentro da carta .[9]
Assim, o`.,ti marca a passagem para um novo assunto na epístola de Pedro, que passa a tratar do Cristo vitorioso, que venceu o sofrimento e a morte. Lenski comenta esta passagem da seguinte forma:
His glorification is the cause (o[ti) of this our being “blessed”, and since our blessedness still lies in the future to so large an extent (I John 3:2) , this “because” is the garantee or assurance for us.[10]
Da mesma forma, Selwyn destaca esta significativa mudança no texto de I Pedro, chamando atenção para o conforto da vitória de Cristo sobre o sofrimento e morte; vitória estendida aos cristãos que também passavam por tribulações por causa de sua fé.
A new application of the imitatio Christ: we pass from the Christus patiens to the Christus victor. In 2:21 ff. the emphasis was on Christ’s meekness, here it is on His courage and triumph; in both His passion is thought of vicarious... and atoning.[11]
a[pax peri. avmartiw/n e[paqen, - A paixão de Cristo foi única e suficiente. Sua morte substitutiva só precisou acontecer uma única vez, e teve abrangência sobre todos os pecados de todos os homens. O termo grego a[pax aparece em outras passagens do Novo Testamento com este mesmo sentido, por exemplo[12] em Hebreus 9.26, 28; e 10.10.
De acordo com Scharlemann, também no Antigo Testamento, esta frase era usada freqüentemente nas ofertas pela culpa e pelo pecado, como tipo do sacrifício definitivo de Cristo:
His death was the conclusive and definitive embodiment in history of the principle of transforming suffering and death into glory and victory. There was never a death like this before; there has been none since. It has absolute value. Christ died “on behalf of sins”. This phrase is used regularly for the sin offerings of the Old Testament. Christ was the great Sin Offering, who atoned not only for single transgressions but for all sins. This is an inclusive plural. There is no sin of any kind, committed anywhere at any time, which was not included in His dying for us.[13]
Existem opiniões divergentes quanto à aceitação do verbo ape,qanen. Selwyn justifica sua opção por avpe,qanen dizendo que a repetida ocorrência de partes da pa,scein no contexto pode ter contribuído para a alteração em alguns manuscritos, nos quais o verbo foi substituído por ev...,paqen. Apesar disso, o sentido não é seriamente afetado, pois ev.,paqen indubitavelmente se refere à morte de Cristo.[14] Mueller, por sua vez, demonstra sua preferência pelo verbo “sofreu”, que já aparecera no contexto (2.21), e que tem um impacto maior nos leitores que podem ver reiterada a identificação deles com seu Senhor[15]. Para Scharlemann, esta identificação se dá em um grau maior com o uso de “morreu”. Ele argumenta da seguinte forma:
The reference to death might also point to the fact that the Christians to whom the Apostle was writing at times met their death as a result of persecution. It must be admitted that there is not much in the rest of the epistle to corroborate this particular point. Yet it is a possibbility, particularly if, as Selwyn suggests, First Peter was written A.D. 62, shortly after the martyrdom of James, the first bishop of Jerusalem.[16]
di,kaioj u``pe.r adi,kwn - O termo di,kaioj já fora usado em 3.12, referindo-se aos cristãos, os que aceitaram por fé o sacrifício vicário de Cristo, descrito nesta sentença. Estes cristãos, justificados pelo sacrifício substitutivo do justo pelos injustos, são colocados em contraste, no mesmo versículo, com “aqueles que praticam males”. Nesta sentença de Pedro, a humanidade, sem exceção, é colocada de um lado e Cristo, sozinho, de outro.
Lenski descreve estes termos como sendo propositadamente judiciais, referindo-se ao veredicto proferido por Deus, sendo preferíveis e mais significativos do que dizer, “um que não tem pecados pelos pecadores”.[17]
qanatwqei.j me.n sarki. zwopoihqei.j de, pne,umati - Aqui, Pedro não está fazendo um contraste e separação das duas partes da natureza humana de Cristo, corpo e alma (pensando na imagem de um corpo morto e uma alma desencarnada que é imortal), como era comum no dualismo da cultura helênica e que foi adotada por alguns Pais da Igreja, como Orígenes, Epifânio, e outros;[18] mas está contrastando a morte de Cristo com sua ressurreição.
O “dativo de referência”, de acordo com a sintaxe grega, reforça esta interpretação, uma vez que coloca a oposição entre duas “esferas” de existência , dois modos de existir.[19] Ele foi morto em sua existência terrena, humana, mas foi ressuscitado em sua existência celestial, divina. Aqui, portanto, não se medita na morte de Cristo somente no ponto e vista soteriológico, mas também em relação à sua própria pessoa..[20] Cristo, o Deus-homem, corpo e alma, foi morto na carne,[21] mas foi vivificado no espírito pela ressurreição da vida.
Ever since the incarnation body , soul, spirit (all human) belong to the Logos, are his forever in an indissoluble union. Death did not affect this union, did not sunder this union. The lifeless body was still that of the Logos; the human spirit, which had been torn from it by death, was in heaven. On Easter morning body and spirit were reunited.[22]
Algumas passagens bíblicas paralelas podem esclarecer melhor este ponto. Em Romanos 1.3-4 , carne e espírito descrevem a natureza de Cristo: “segundo a carne, veio da descendência de Davi, e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos”. Partindo deste versículo, Roehrs e Franzmann comentam esta relação:
In the flesh, in full and suffering humanity, He went to His death and endured the infliction of it upon Himself in all its bitterness. The spirit, which he committed to his Father’s Hands, was kept safely there (Lk 23:46; cf. 2Ti 1;12).[23]
Sa,rx não pode ser tomado como sinônimo de “corpo” neste texto, embora isto seja possível em outros textos no Novo Testamento. Scharlemann fala que o significado de sa,rx “is at times used of a person’s earthly career. St. Paul uses it that way in Phil. 1.24, where he speaks of wanting to remain in this life for the sake of his Christians at Philippi.”[24]
A morte de Cristo foi morte verdadeira, ou seja, a separação de sua alma do corpo, conforme Mateus 27.50; Marcos 15.37; Lucas 23.46; e João 19.30. O próprio Filho de Deus morreu (Atos 3.15).
Sobre isso ainda escreve Seebass: “ Cristo não foi deixado no Hades, a sua carne não viu corrupção, porque aqui ‘carne’, sendo o paralelo de Cristo, representa o homem inteiro. (At 2.31 cf Sl 16.10) ... Em Lc 24.39, o Ressurreto faz saber que Ele não é um espírito, por que tem carne e ossos”.[25]
Os verbos qanatwqei,j e zwopoihqei,j estão no passivo, e isto é significativo. Cristo foi morto, isto é teve morte violenta causada por outros. Foi também vivificado, isto é, recebeu nova vida no espírito. Ambos apontam para momentos climáticos da história de Cristo.
Resta ainda a questão da distinção entre vivificação e ressurreição. Este é um ponto importante para a compreensão do texto, pois pode esclarecer pontos como a cronologia da descida de Cristo ao inferno. Alguns eruditos colocam a ressurreição como uma demonstração pública (exhibitio)[26] de que, de fato, houve a vivificação. Em Efésios 2.5-6, Paulo aponta para esta diferença, embora em várias passagens do Novo Testamento isto não seja feito. Sobre esta posição, Scharlemann afirma:
Such a distinction would lead us to believe that we could quite properly, on the basis of the New Testament, separate the vivification and the ressurrection for purposess of chronology and clarification of what happened early on Easter Sunday morning.[27]
evvn w/[ kai - A interpretação desta pequena parte do versículo pode influenciar na compreensão de toda a perícope. A questão aqui é definir a que este pronome relativo estaria se referindo. Alguns comentaristas, entre eles Ênio R. Mueller, defendem que este “no qual também” se refere a pneu,mati, a palavra anterior, desta forma, argumentam, o pensamento teria continuidade.
O salmo 16. 8-11, citado por Pedro em seu discurso no dia de Pentecoste (Atos 2.25-28) é considerado uma profecia à respeito da descida de Cristo ao inferno. Este texto é tomado por J. Pearson como uma prova da descida somente em alma ao inferno. O versículo 27 diz: “...não deixarás a minha alma (yuch,n)[28] no hades (a[dhn), nem permitirás que o Teu Santo veja corrupção”. Pearson argumenta que se pode chegar a esta conclusão por dedução:
If the soul of Christ were not left in hell at his resurrection, then his soul was in hell before his resurrection... For as his flesh did not see corruption by virtue of that promise and prophetical expression, and yet it was in the grave, the place of corruption, where it rested in hope until his resurrection... So his soul... was in that hell... until the time that it was to be united to the body for the performing of the resurrection.[29]
Mas esta opinião é contradita pela maioria dos teólogos, entre eles Roehrs, Franzmann, Selwyn, Lenski e Scharlemann, que acreditam que o pronome relativo se refira a todo o contexto descrito no versículo dezoito,[30] ou seja, a Paixão, morte e vivificação de Cristo[31]. Selwyn apresenta o seguinte argumento:
The antecedent cannot be pneu,mati, for there is no example in N.T. of this dative of reference, or adverbbial dative as I should prefer to call, serving as antecedent to a relative pronoun.[32]
Scharlemann argumenta que Pedro já havia usado a mesma construção em outras passagens:
Since the Apostle has once before (1:6) used this same construction in a wider sense, there is a strong possibility that it is to be interpreted in that way at this point. This position is strengthened by the fact that in 4:4 the same phrase occurs again in its broader usage.[33]
Desta forma, a descida de Cristo ao inferno é interpretada como sendo realizada por Cristo em corpo e alma,[34] no espaço de tempo entre sua morte e ressurreição, depois de ser vivificado no espírito, seguindo a ordem estabelecida no Credo Apostólico.[35]
filakh/ pneu,masin - O termo pne,umasin é usado, na maior parte das vezes, como um ser independente, que não pode ser percebido pelos sentidos físicos. Neste sentido, o termo é usado para Deus (somente em Jo 4.24);[36] bons espíritos (anjos); maus espíritos, demônios (mais de 40 vezes, sendo 30 só nos Sinóticos). Nos últimos livros do Novo Testamento, de Hebreus a Apocalipse, pneuma, como espírito humano aparece apenas 13 vezes. Hebreus 12.23 parece indicar pessoas já mortas, pertencendo à esfera espiritual da existência.[37]
A maioria dos eruditos tem concordado que estes espíritos de I Pedro 3.19 são demônios, aos quais Cristo pregou a sua vitória, a quem se referem os textos de 2Pedro 2.4 e Judas 6.[38] Lingüisticamente argumentam da seguinte forma:
Isto, até certo ponto, é confirmado pelo uso sem qualificativos do vocábulo pneumata, ‘espíritos’, que noutras porções da Bíblia é usado apenas para designar seres sobrenaturais, e jamais seres humanos falecidos.[39]
Por outro lado, há os que concluem[40] que estes espíritos em prisão são daqueles homens que foram desobedientes e incrédulos e que agora, na época em que Pedro estava escrevendo, são espíritos desincorporados, aprisionados,[41] que aguardam o juízo final.
Esta última posição é sustentada pelo próprio texto que especifica, como veremos mais adiante no versículo vinte, estes espíritos como aqueles que “em outro tempo foram desobedientes, quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé...”. Estes espíritos, portanto, só podem ser de homens incrédulos, não do diabo e anjos maus. Sabemos, entretanto, que outras passagens da Escritura ampliam estes ouvintes, e o propósito da descida de Cristo. Apocalipse 1.18 e Colossenses 2.15, apontam para a proclamação do triunfo de Cristo sobre os demônios.[42]
Outra interpretação para os “espíritos em prisão”, lançada por alguns teólogos influenciados pelo pensamento platônico, entre eles Agostinho,[43] é que eram as pessoas que viviam no período pré-diluviano e por isto estavam com seu espírito aprisionado na prisão do corpo. Desta forma, Cristo, como o Verbo pré-encarnado, foi e anunciou a redenção para estes incrédulos aprisionados em seus corpos, na época de Noé. Esta idéia vai totalmente contra a concepção antropológica nas Escrituras.
O termo fulakh/, é algumas vezes utilizado como sinônimo de inferno, av,dh, tártaro, ou ge,ennan tou/ puro,j. Quando a Escritura menciona a condenação dos pecadores, geralmente usa o termo av,dh, isto talvez explique a substituição mencionada no aparato crítico.
Em Lucas 16. 19-31, na parábola do “Rico e Lázaro”, contada por Jesus, é chamado de av,dh o lugar que o ímpio rico foi depois de sua morte. O termo “hades”, traduzido do hebraico “sheol”, é usado em outras passagens do Novo Testamento significando inferno, como por exemplo quando Cristo fala dos “portões do hades”(Mt 16.18). Aqui, o termo é usado como uma personificação dos poderes infernais.[44]
Na exegese patrística, e em alguns comentaristas hoje, hades é considerado a habitação dos mortos, bons e maus. Um lugar para onde todos vão depois da morte, na espera do julgamento final. Esta idéia não está de acordo com o ensino bíblico. Se assim for considerado, hades não pode ser considerado como sinônimo de prisão.[45] No Novo Testamento, hades só é usado para o lugar da condenação daqueles que foram incrédulos e impenitentes, para os quais não há nova chance de redenção,[46] e dos anjos decaídos.
O termo “prisão”, desta forma, é interpretado como um substantivo, referindo-se ao lugar em que se encontram os mencionados espíritos; ou então, o que é menos provável, pode ser interpretado como um adjetivo, referindo-se à situação ou estado em que eles se encontram.[47]
poreuqei,j - No Credo Apostólico, o ato de Cristo é explicitado como “desceu”, porém, o termo grego não indica a direção. Matthew Henry descreve assim o movimento de Cristo: “He went, not by a local motion, but by special operation, as God is frequently said to move, Gen.xi.5;Hos.v.15; Mic.i.3.”[48]
Nós podemos observar que no versículo vinte e dois, o mesmo verbo (poreuqei,j) é usado para designar a subida de Cristo. Lá se diz “ir para o céu”. Existe um paralelismo claro entre estas duas passagens; a ida para o inferno, a ressurreição e a ascensão.
Estes movimentos não indicam uma relação necessária com a imagem de “cosmo mítico de três andares”, mas simplesmente uma relação com o sentimento natural que o homem tem a respeito do universo, e para quem, afinal, a luz e o céu estão acima e a escuridão e o mundo subterrâneo ficam abaixo.[49]
Em alguns versículos, que são tomados para apoiar escrituristicamente a doutrina da descida de Cristo ao inferno, usam os verbos “descer” e “subir”. Em Efésios 4.8-10, lê-se: “...havia descido até às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu, é também o mesmo que subiu acima de todos os céus”. Em Romanos 10.7, o apóstolo pergunta: “Quem descerá ao abismo?”. O termo grego usado nos dois versículos para “descer” é katabai,nw.
evkh,puxen - Este é um dos pontos mais problemáticos da perícope. Há muita discussão entre os teólogos sobre o conteúdo da pregação de Cristo aos espíritos em prisão. Qualquer erro na tradução e interpretação deste verbo pode acarretar uma compreensão errada de todo texto, e levar a vários problemas de doutrina. Um dos principais equívocos que surgem disto é a idéia de uma nova oportunidade de arrependimento pela pregação do evangelho aos ímpios no inferno, como queria Marcion,[50] ou aos ímpios e demônios, como queria Orígenes.[51]
Via de regra, o verbo no Novo Testamento é tomado quase como um termo técnico para a proclamação do evangelho, mas ele também pode ser usado em seu sentido neutro (Lc 12.3; Rm 2.21; Ap. 5.2), de proclamação, sem implicar nada sobre o seu conteúdo,[52] especialmente se não vem acompanhado do objeto direto. Isto geralmente não é o que acontece na maioria dos casos.
The verb is usually followed by its object in N.T., cf. Mk i.14 (to, euangge,lion tou Qeou/)...,but it is sometimes used absolutely, when the context makes clear what is proclaimed or preached. The dative of indirect object is found in the Synoptic Gospel only in Mk.xvi.15.(...) The commonest reference is to the Gospel and its offer of salvation, to which the appropriate response is repentance. But in Rev. v.2 the word is used of an angel’s proclamation, and this neutral meaning is the more probable here.[53]
O conteúdo da pregação, kerigma, que é diferente em cada caso, pode trazer conteúdo de condenação e juízo, como em II Pedro 2.5, onde Noé é chamado kh/rux, (pregador). O conteúdo da sua mensagem foi também, de acordo com o contexto e Hebreus 11.7, o anúncio do julgamento do Dilúvio.[54]
O uso do verbo em Pedro deve ser ressaltado. Quando ele se refere à proclamação do evangelho de forma clara, e isto acontece quatro vezes, Pedro nunca usa este verbo.
Sobre a possibilidade de pregação do evangelho aos espíritos em prisão como quer a teologia católica, Davids escreve:
Although the NT never speaks of anyone’s evangelizing spirits, it does speak of the victory of Christ over spirits (e.g., 2Co 2.14;Col 2.15; Rev 12.7-11; cf. Eph 6.11-12, which implies the same, and Isa 61.1; Jon 3.2,4 in the LXX). Moreover 1 Enoch also has a proclamation to spirits in prison (16.3), and it is a proclamation of judgement.[55]
avpeiqh,sasin - O texto estabelece que Cristo pregou aos que foram desobedientes. Estes são aqueles que pertenciam à geração que viveu nos dias de Noé e que não obedeceu à sua pregação de arrependimento, preferindo continuar na maldade que vivia.
A narrativa de Gênesis, capítulos 6 a 9, que conta a história dos “dias de Noé”, não fala claramente de anjos, nem de sua desobediência. Fala sim da maldade espraiada e da corrupção generalizada que havia naqueles dias na terra (Gn 6.11,12) e que por isso, Deus chegou a se arrepender de ter criado o homem (6.5).
Em Gênesis, não é apresentada de forma clara e direta a pregação de Noé para seus contemporâneos, mas isto fica evidente em 2 Pedro 2.5, quando ele é apontado como “pregador da justiça”. A tradição judaica também é bastante clara quanto a isso.[56]
Uma vez que os desobedientes, para os quais Cristo pregou, estão aqui especificados como aqueles que viviam no tempo de Noé, surgem questões do tipo: Porque Cristo pregou somente a estes que morreram no Dilúvio? Porque Pedro citou somente estes que foram desobedientes na época de Noé?
Algumas respostas podem ser levantadas: Quando Pedro caracteriza a geração de Noé como “desobedientes”, há uma identificação entre ela e a geração em meio à qual vivem os cristãos do primeiro século, entre os quais o autor e os leitores de 1 Pedro estão inseridos. A geração deles também era desobediente à Palavra (2.8), e não obedeciam o evangelho de Deus (4.17).
Assim como o grupo de Noé era uma insignificante minoria no meio de sua geração, assim também são os cristãos na Ásia Menor (vv.20,21); mas são eles que são salvos... pelo batismo ( como foi o dilúvio para Noé).[57]
Quando Pedro escolhe os desobedientes do tempo de Noé, não está excluindo os outros da condenação do inferno. Lenski responde esta questão da seguinte forma:
This question is excluded by the anarthrous and qualitative character of the participle... Christ did not make herald proclamation to those only who were disobedient at the time of the flood, which though would require toi.j avpeiqh,sasi (the article repeated), but to all the spirits in prison, all these being such as were disobedient (the participle is merely qualitative).[58]
Agora, quando se entende estes “espíritos em prisão” como anjos que estão aprisionados porque foram desobedientes nos dias de Noé , surgem alguns problemas de interpretação. Alguns associam a desobediência destes anjos decaídos com o episódio de Gênesis 6. 1-4.
Pedro provavelmente fazia uso e conhecia a tradição judaica que fazia referência aos dias de Noé, por exemplo, nos livros de Jubileu e especialmente 1 e 2 Enoque (livros apocalípticos dos dois séculos anteriores à era cristã ). A história de Gn 6 era interpretada na apocalíptica judaica como anjos que “não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio”(Jd 6); e estes são os “filhos de Deus”, de Gn 6.2,4, que, assim em desobediência, abandonaram o seu “domicílio”(para Paulo, isso seria “as regiões celestiais”, Ef 6.12, ou simplesmente “o ar”, Ef 2.2) e vieram à terra, seduzindo mulheres e tendo filhos com elas. Neste ponto, tais anjos “pecaram”(2 Pe 2.4)....A reação de Deus, então, foi: “precipitando-os no tártaro, e os entregou a abismos e trevas”(2 Pe 2.4), tendo-os assim “guardado sob trevas, em algemas eternas”(Jd 6) até o dia do juízo (2 Pe 2.4; Jd 6). Na tradição (e conforme a seqüência da narrativa em Gênesis) isso veio a ser associado com Noé e o Dilúvio (a mesma associação temos em 2 Pe 2.5).[59]
Também Roehrs e Franzmann classificam este como o terceiro e final exemplo da crescente maldade da criação, que provocou a ira de Deus e o juízo no Dilúvio.
This may refer to the fallen angels of Gn 6:1-4. In the structure of Genesis they constitute the third and final example of that ever-increasing “wickedness of man”(Gn 6:5) which led to the judgement of the flood, the first being Cain (Gn 4:1-16) and the second, Lamech (Gn 4:23-24; cf 2 Ptr 2:4-5; Jude 6). Jewish tradition made much of the incident as indicating the origin of demoniac powers.[60]
Em nossa perícope, 1 Pedro 3.18-20, não se menciona a pregação da vitória de Cristo ao Diabo e seus anjos maus, mas outros textos podem completar e tornar mais clara esta idéia. Colossenses 2.15 é um texto que serve de apoio à doutrina da descida de Cristo ao inferno: “e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz”. Também Apocalipse 1.18 e 20.1-3, deixam clara a vitória de Cristo. Rottmann comenta o texto (20.1-3), tendo em vista a proclamação de Cristo no inferno:
“...e o prendeu por mil anos.” Já constatamos que esses “mil anos” começaram no momento em que Cristo, antes de sua morte na cruz, anunciou sua vitória sobre o diabo com o grito tetélestai! - “Está consumado”(Jo 19.30). Com sua descida ao inferno, ao abismo, Cristo mostrou ao diabo e suas forças a sua vitória. Foi este o início dos “mil anos” nos quais Satanás, o dragão, está amarrado, limitado em sua atividade....No v. 7, fala-se do abismo como da “prisão” de Satanás. A condenação ao castigo eterno é expressa quando se fala, no v. 10, do seu “lançar para dentro do lago de fogo e enxofre”.[61]
pote o[te - Esta expressão “noutro tempo”, é a mesma que Pedro já usara em 3.5, referindo-se lá às “santas mulheres de outrora”.
In the N.T., when pote, refers to the past, it is always used either in this sense, or to point a contrast between past and present conditions of affairs (as in I Pe.ii.10). The Apostle is drawing on ancient lore here exactly as he did in iii.5,6.[62]
Aqui é delimitado o tempo passado como nos dias de Noé. Sobre esta delimitação, o propósito e a intenção de Pedro ao fazê-lo, escreve Lenski:
pote o[te, “once when”, is not intended as such a restriction or limitation of toij pneu,masi. This would be expressed by a second toi,j before avpeiqh,sasi and by a third toi,j with a participial clause in place of o[te, at least by the latter “once when” introduces only a sample of the unbelief of disobedience, which is illustrative of all the spirits of the damned in prison...By means of “once when” Peter might have referred to Sodom and Gomorrah as Jesus does in Matt. 10:15, and Paul in Rom. 9:29, Jude in v.7, and Peter himself in II Pet. 2:6 and made them “na example of those about to be ungodly”.[63]
Nw//e - Muitos têm dito, entre eles Marcion, os teólogos alexandrinos e Orígenes,[64] que Cristo foi ao inferno pregar o evangelho, concedendo uma chance para aqueles que não tiveram oportunidade de ouvir o anúncio da salvação, pois no tempo antigo não havia quem anunciasse. Isto, sem dúvida é pura fábula da razão e não tem base escriturística.
Durante 120 anos, o mundo antigo tinha Noé como “pregador da justiça” (2 Pedro 2.5) que condenava o mundo por causa de sua incredulidade e injustiça (Hb 11.7). A construção da arca, por si só, era uma pregação de juízo iminente aos que não criam, e anúncio e oportunidade de salvação aos que viessem a crer.[65]
O Antigo Testamento não nos deixa dúvidas sobre as bênçãos daqueles antigos santos que morreram crendo no prometido Messias. De Abraão, Paulo fala que foi justificado pela fé (Rm 4.1), e Jesus fala que Abraão “alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se” (Jo 8.56), isto não deixa lugar para uma espera no Limbus Patrum, como quer a doutrina católica romana, até que Cristo realizasse a sua obra.[66]
h`` tou/ Qeou/ makroqumi,a - O tempo da graça termina quando a makroqumi,a acaba, como havia acabado nos dias de Noé. Como o fogo de Sodoma e Gomorra, o Dilúvio é lembrado na Escritura como um tipo do julgamento final.[67] O próprio Cristo compara aqueles dias e o modo como viviam os contemporâneos de Noé com a sua segunda vinda, em Mateus 24.37.
Este versículo tem sido usado por muitos comentaristas para completar o pensamento iniciado em I Pedro 3.18-20, especialmente quanto à pregação do evangelho aos mortos no inferno, justificando, assim a idéia herética de uma nova oportunidade de salvação para aqueles que já haviam sido condenados.
Desde os primeiros Pais da Igreja, Clemente de Alexandria, Orígenes, entre outros, este versículo é interpretado como indicando a oportunidade de se ouvir falar de Cristo, para que se possa aceitá-lo ou rejeitá-lo, em um âmbito que, finalmente, tornar-se-á universal (Universalidade da Oportunidade).[68]
Mas, esta ligação, entre os versículos 3.19 e 4.6, é negada pela maioria daqueles que fazem uso do método histórico-gramatical. J.T. Mueller, entre outros, afirma que 1 Pedro 4.6 não trata da Descida de Cristo ao Inferno e que o próprio contexto nos mostra isto.[69]
Nós passamos à análise exegética do versículo:
nekroi/j - A grande questão[70] aqui, é definir se Pedro está falando de mortos físicos ou mortos espirituais. Os teólogos, ao longo da história, têm se dividido quanto a esta questão. Para se ter uma compreensão maior deste versículo, é necessário partir do contexto imediato.
O versículo anterior, I Pe 4.5, fala do juízo tanto dos vivos quanto dos mortos, ou seja, todos que ainda estiverem vivos quando Ele vier para julgar, e todos que estiverem mortos naquele dia.[71]
A este juízo está ligado o versículo 6 como explicação por meio do ei.j tou//to ga,r. Assim sendo, o versículo 6 fundamenta o juízo no versículo 5. O juízo de vivos e mortos só e possível, do ponto de vista da justiça divina (uma vez que Deus quer que todos sejam salvos) se ambos tiveram a mesma oportunidade de salvar-se pela pregação do evangelho. O versículo 6 responde a isso, dizendo que aqueles mortos haviam recebido oportunidade de salvação pela pregação do evangelho durante o tempo de sua vida. Em conseqüência disso, os nekroi,, nos dois versículos devem ser os mesmos, isto é, mortos físicos.[72]
Por outro lado, há os que acreditam que exista uma diferença óbvia entre os “nekroi,” dos dois versículos. No versículo 5, Pedro está se referindo aos mortos espirituais; já o versículo 6 trata dos fisicamente mortos. Lenski explica esta relação assim:
Peter is thinking of the future as also the future tense shows: “They ( the blasphemers) shall give due account”; whether they appear among the living or among the dead at that day, their reckoning shall be made. In v.6 the tense is the aorist: “it was gospeled”, was when Peter wrote; “to dead men”, dead when Peter wrote.[73]
Quanto ao versículo 6, a maior parte dos Pais da Igreja, entre eles Agostinho e Clemente de Alexandria,[74] espiritualizavam o termo, interpretando a passagem como uma pregação de evangelho àqueles que estavam espiritualmente mortos.
Esta interpretação não pode ser aceita aqui. Estes seriam aqueles cristãos que já morreram, que já foram “julgados na carne segundo os homens”. A preocupação com o destino destes aparece também em 1 Ts 4.13-17, uma passagem relevante para a compreensão deste versículo. O evangelho sempre encontra homens espiritualmente mortos quando é pregado a eles pela primeira vez. O evangelho foi pregado a estes enquanto estavam fisicamente vivos, e eles o receberam (passaram da morte para a vida espiritual). Depois morreram. A intenção de Pedro é dar alento aos leitores que estavam vivendo uma época de sofrimento, perseguições e mortes.[75]
Euvhggeli,sqh - A palavra euaggeli,zesqai é aplicada à pregação de Jesus somente no evangelho de Lucas (incluindo a citação de Is 61.1,2 em Lc 4.18) Lá isto é feito apenas quatro vezes. A mesma palavra é usada várias vezes para descrever a pregação dos apóstolos, onde Cristo é o objeto de euvaggeli,szesqai( At 5.42; 8.35; 11.20; 17.18; Gl 1.16; 1Co 15.12).[76]
Bigg says that euhggelisqh here is impersonal, but examples of this construction in N.T. are exceedingly rare... Blass, who observes this fact...gives a few references, but only Rom x.10 is a true impersonal passive of the type illustrated by Goodwyn (Greek Grammmar, 1240)...On the other hand, we get a perfectly normal construction by taking Christ as the subject of euhggelisqh.[77]
De acordo com Lenski e J. T. Mueller,[78] o verbo, neste versículo, está na vox positiva e não na vox media, como em I Pedro 3.19.
O evangelho foi pregado àqueles que, na época em que Pedro escrevera a carta, estavam mortos, isto não significa que os mortos tem nova chance de arrependimento e salvação, pois todos os homens serão julgados pelas ações no tempo de suas vidas, conforme fala Pedro em I Pedro 4.4-5 . Também Hebreus 9.27: “aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o juízo.”
O objetivo da pregação do evangelho no tempo de vida destes homens, que vieram a morrer depois de ouvi-lo, era dar-lhes nova vida espiritual, salvação e a esperança da vida eterna.
Se perguntarmos agora, quando sucedeu esta pregação entre os mortos, devemos nos lembrar da providência divina desde Adão e Eva, e de Sua longanimidade até os dias da Igreja Cristã Primitiva, e até nossos dias.[79] O próprio Pedro nos diz em I Pedro 1.10-12: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando atentamente qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que os seguiriam.” E ainda a Parábola, contada por Jesus em Lucas 16.19-31, do Rico e Lázaro : “Eles tem Moisés e os profetas”. Esta pregação de evangelho entre os mortos, portanto, não aconteceu no inferno, mas durante a vida terrena mediante a graça de Deus.
Kriqw/si me.n kata. avnqrw,pouj sarki. zw/si de. kata. Qeo.n pneumati - Existe um paralelismo entre o fim do versículo 3.19 e o versículo 4.6. Lá se diz de Cristo que Ele foi “morto na carne, mas vivificado no espírito”. A mesma oposição entre carne e espírito se acha aqui.[80] Tal como Cristo morreu e ressuscitou, também os crentes que morrerem, ressuscitarão com Ele. Existe aí uma identificação do mestre com seus discípulos, tal com está descrito em Romanos 6.5: “Se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição”.
O juízo na carne, segundo os homens, provavelmente se refere à morte: a sua morte é o juízo divino sobre o homem, mas através da pregação do evangelho lhes é dada a oportunidade da vida. Pode-se fazer um paralelo deste trecho com Apocalipse 20.4-6. J.H. Rottmann comenta a passagem:
Tomamos a palavra “viveram” como referente ao início de sua vida espiritual, no momento em que chegaram a crer aqui na terra, de acordo com as palavras de Jesus em Jo 5.24 (...) A expressão “restante dos mortos”, refere-se àqueles que não chegaram a viver espiritualmente, mas ficaram na sua vida em pecados e transgressões, mortos. Eles passaram da morte espiritual para a morte eterna... Quando os incrédulos morrem, sua alma deixa o corpo...e permanecem neste estado de morte até o julgamento final no dia derradeiro. E vão, então, com seu senhor, o diabo, em condenação eterna para a morte eterna, a “segunda morte”.[81]
A doutrina da descida de Cristo ao inferno é confessada em dois dos três Símbolos Ecumênicos: o Credo Apostólico e o Credo Atanasiano. Esta doutrina bíblica já era aceita, discutida e confirmada desde o início da Igreja Cristã. Apesar disso, só foi colocada como uma confissão de fé clara e precisa alguns séculos mais tarde.
A concepção da descida de Cristo ao inferno estava muito difundida na literatura produzida nos dois primeiros séculos da era cristã. A doutrina foi quase universalmente afirmada pelos Pais da Igreja, incluindo Policarpo, Justino Martir, Orígenes, Hermas, Irineu, Cipriano, Tertuliano, Hipólito, Clemente de Alexandria e Agostinho. As referências patrísticas mais antigas à descida ocorrem nas epístolas de Inácio, datadas do começo do século II.[82]
É um fato marcante, na literatura patrística dos dois primeiros séculos, que em nenhum lugar o “descensus ad inferos” é relacionado diretamente com a passagem de I Pedro; e a primeira vez que isso veio a ocorrer foi com Clemente de Alexandria, no fim do segundo século.[83]
A doutrina também é relatada em “As Odes de Salomão”, escrita por volta do segundo século, “Atos de Tomé”, e no “Evangelho de Tomé”, entre outros. Como nos mostra Gerhard Barth:
Evangelho de Pedro 10.41 s. (e ouviram uma voz clamar dos céus: “Tu pregaste aos mortos?”. E ouviu-se a resposta da cruz: “Sim”. Texto em: Synopsis quattuor evangeliorum, edidit K. Aland, 2o ed.. 1965, pag. 498), bem como esta citação estranha que, conforme Justin Diálogo 72.4 fizera parte do Velho Testamento e que fora tirada de lá por judeus inimigos: “O Senhor, o Santo de Israel, lembrou-se de seus mortos que dormem nos túmulos e desceu para junto deles para levar-lhes a boa nova da salvação”...esta frase deve ter sido conhecida nas comunidades cristãs do século II, pois Irineu a cita algumas vezes (Haer III 20.4; cf. também Haer IV 22.1.[84]
Como se vê, a doutrina estava bastante presente também nos livros apócrifos e pseudepígrafos. Isto demonstra e comprova a existência de discussões a respeito do tema.
Ao lado disso, algumas formulações doutrinárias da Igreja Cristã Primitiva, que posteriormente vieram a dar origem ao Símbolo Apostólico, apresentavam a concepção da descida de Cristo ao inferno:
The earliest formal creedal confession of the descensus ad inferos is found in the so-called Fourth Formula of Sirmium, A.D. 359. Furthermore, we are told by Rufinus that this article was found toward the end of the fourth century in the baptismal homologia as used by his church at Aquileia. It appears that only at the beginning of the seventh century was the item on the descensus accepted generally into the creeds of the Wester Church.[85]
O Credo Romano (aproximadamente 390 A.D.), que retratava a influente posição confessional da Igreja de Roma, não contava com uma alusão à descida de Cristo ao inferno. Isto só veio a ocorrer posteriormente, com o gradual acréscimo de algumas cláusulas retiradas de formas antigas e contemporâneas. O artigo “desceu ao Hades”, acrescentado ao Credo de Roma é proveniente do Credo de Aquileia.[86]
O Credo de Roma, que tinha excelência sobre os demais, veio a constituir o Credo Apostólico posteriormente.[87]
A frase “descensus ad inferos” só foi adicionada posteriormente ao Credo Apostólico, entre os séculos V e VI.[88] O motivo que levou a essa inclusão posterior é desconhecido. Havia um tempo em que se pensava que a inclusão se deu para combater o Apolinarianismo, mas esta suposição, provavelmente, é improcedente.[89]
A questão da fundamentação bíblica para as doutrinas nos Símbolos Ecumênicos não parece ter sido contundentemente posta em dúvida. Se olharmos as várias partes dos credos separadamente, constatamos que são todos de origem nicena ou pré-nicena. Constatamos também, que todos os artigos e fatos concordam com a doutrina neotestamentária, mesmo aqueles que foram acrescentados posteriormente, como a descida ao inferno.[90]
Na Igreja Oriental nunca foram aceitos os credos Apostólico e Atanasiano, embora a discussão teológica e especulações à respeito do descensus tenha se dado primeiro no Oriente, ao que tudo indica.[91]
Na Igreja do Oriente, as idéias que ganharam ascendência falam que a alma de Cristo entrou na região dos mortos com a finalidade de conduzir os santos do Antigo Testamento para as delícias do céu (cf. Evangelho de Nicodemus). Na Igreja Ocidental, surgiu a interpretação em termos do limbus patrum, quando Jesus ofereceu às almas dos patriarcas e profetas mortos os benefícios de seu sacrifício. Em ambas as teologias, procura-se enfeitar a doutrina com detalhes extra-bíblicos, estendendo a obra redentora de Cristo.[92]
Na teologia reformada,[93] alguns omitem do Credo Apostólico a frase “desceu ao inferno (hades)”, que é interpretada, de acordo com o pensamento de Calvino, como uma expressão figurativa da verdade que Cristo sofreu a ira de Deus por nós na cruz. Estas palavras, desta forma, são consideradas como não mais do que um complemento ao antecedente sepultus est.
Nos tempos modernos, a doutrina da descida de Cristo ao inferno é freqüentemente descrita como um resquício da mitologia sub-cristã, ou seja, uma apropriação e aplicação a Cristo de um fragmento da mitológica redenção das religiões orientais.[94]
Desta forma, constata-se que, ao longo da história, quando se procurou respostas racionais, querendo ir além daquilo que é revelado ao homem, sempre foi subvertida a verdade escriturística.
Lutero muitas vezes expressou sua opinião sobre o texto de I Pedro e sobre a descida de Cristo ao inferno. Alguns comentários e sermões trazem seu posicionamento a respeito da doutrina em questão. Este posicionamento nem sempre foi uniforme. Pode-se dizer, de um modo geral, que aconteceram algumas mudanças e desenvolvimento progressivo no pensamento de Lutero sobre o assunto ao longo de sua vida.
No período inicial, Lutero parecia estar inclinado a aceitar a visão tradicional (com algumas modificações), de acordo com o ensino dos Pais Apostólicos. Pode-se perceber isto no comentário de I Pedro: 3.18-20, escrito entre 1522 e 1523,[95] onde Lutero expressa sua opinião:
This is a strange text and certainly a more obscure passage than any other passage in the New Testament. I still do not know for sure what the apostle means...I surely cannot believe that Christ descended to the souls and preached to them there. Scripture, too, is against this and states that everyone, when he comes to that place, will receive as he believed and lived....it is certain that Christ is present and preaches to the hearts wherever a preacher proclaims the Word of God to the ear....Christ ascended into heaven and preached to the spirits, that is, to human souls, and among these souls there were unbelievers in the days of Noah.[96]
Em seu comentário de Oséias 6.2, escrito em 1530,[97] Lutero parece acenar com a possibilidade da pregação de Cristo no inferno ter proporcionado perdão dos pecados para aqueles que esperavam na longanimidade de Deus, nos tempos de Noé.
Here [1Pet.3:18 ff.] Peter says clearly that Christ appeared not only to the dead fathers and patriarchs, of whom Christ in His resurrection no doubt raised with Himself to eternal life, but that He preached to some who at the time Noah did not believe, but trusted in the patience of God, that is, who hoped God would not deal so severely with all flesh, in order that they might know that their sins were forgiven through the sacrifice of Christ. At this place [Hos.6:2] the Prophet therefore embraces the Church of all times, that is, not only the one which was under the Law and according to the Law, but also the one which existed before the Deluge.[98]
Algumas acusações foram lançadas contra o posicionamento de Lutero neste comentário. Alguns chegam a apontar uma tendência ao universalismo. Esta é uma interpretação descontextualizada no pensamento de Lutero. Em nenhum lugar, em sua vasta obra, ele apresenta uma definitiva expressão de qualquer crença no universalismo.[99] Apesar disso, tudo indica que ele veio a mudar de opinião nos últimos anos de sua vida:
Luther changed his point of view with respect to this passage is confirmed by Melanchthon’s remark, from 1543, that Luther was disposed to think of Christ’s preaching in Hades, referred to in First Peter, as having possibly effected also the salvation of the nobler haethen, such as Scipio and Fabius.[100]
A opinião de Lutero sobre a interpretação da passagem de I Pedro também se encontra em sua exposição do sétimo capítulo de Gênesis, versículo primeiro, escrito em 1535:[101]
For Peter shows with these very words that it was an unbelieving world to which the dead Christ after His death preached. But if that is true, we cannot doubt that Christ may have brought to these prisioners in person also Moses and the Prophets, in order that He might make of the unbelieving world a new and believing one. This seems to be the sense of the words of Peter, though I do not mean to say anything definite on this point.[102]
Aqui, Lutero está apresentando algumas conjecturas, que de modo algum podem ser tomadas como definitivas. Pelo contrário, como ele mesmo afirma enfaticamente, não se pode fazer de conjecturas sobre a pregação do evangelho doutrinas definitivas e artigos de fé. A posição tomada aqui, de modo nenhum pode ser considerada contraditória à sua pregação no sermão de Torgau, de 1533.[103]
O sermão de Torgau parece ser a opinião definitiva sobre a questão da interpretação do descensus ad inferos. É citado no artigo IX da Fórmula de Concórdia como uma explicação feita de modo inteiramente cristão, eliminando todas as perguntas inúteis, desnecessárias, a admoestando todos os cristãos à simplicidade cristã da fé.
Estas são as principais manifestações de Lutero sobre o assunto. Sabemos do risco que se corre ao alistar citações isoladamente, fora do contexto, mas o objetivo aqui é apenas demonstrar a variação e a indefinição de Lutero quanto à interpretação deste artigo. Um estudo nos dogmáticos da teologia luterana posterior, que estava afirmada nos princípios de interpretação de Lutero, esclarece, até onde a Escritura permite, a questão.
No Livro de Concórdia, a descida de Cristo ao inferno é citada onze vezes. Aparece nos Credo Apostólico e Credo Atanasiano. Na confissão de Augsburgo é citada no Artigo III: Do Filho de Deus. Lá se diz que “o Filho de Deus, assumiu a natureza humana no seio da bem-aventurada Virgem Maria. De sorte que há duas naturezas, a divina e a humana, inseparavelmente conjungidas na unidade da pessoa, um só Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que, nascido da Virgem Maria, veramente...desceu ao inferno”.[104]
Também é citado na primeira parte dos Artigos de Esmalcalde, no Catecismo Menor, no Catecismo Maior de Lutero, onde não se faz uma maior explanação da doutrina.
Na Fórmula de Concórdia, Epítome, tem-se uma explanação mais ampla e detalhada sobre a posição luterana diante da doutrina da descida de Cristo ao inferno. O Artigo VIII., Da Pessoa de Cristo, reafirma que o Cristo que desceu ao inferno é “um homem cuja natureza humana tem uma união e comunhão tão profundas e inefáveis com o Filho de Deus, que ela é uma só pessoa com ele”. No Artigo IX, Da Descida de Cristo ao Inferno, se afirma que até mesmo entre os teólogos que professavam a Confissão de Augsburgo houve controvérsia sobre o
...quando e de que modo o Senhor Jesus, de acordo com a nossa simples fé cristã, desceu ao inferno: se aconteceu antes ou depois de sua morte. Também, se aconteceu somente segundo a alma, ou apenas segundo a divindade, ou de corpo e alma, espiritualmente ou corporalmente. Outrossim, se esse artigo pertence à paixão ou à gloriosa vitória e triunfo de Cristo. Mas visto que esse artigo....não pode ser compreendido pelos sentidos nem pela razão, devendo, ao contrário, ser apreendido pela fé somente, é nossa opinião unânime que sobre isso não se deve discutir, porém se deve apenas crer e ensiná-lo da maneira mais simples, como o Dr. Lutero, de bem-aventurada memória, no sermão de Torgau, no ano de 1533, explica esse artigo de modo inteiramente cristão, elimina todas as perguntas inúteis, desnecessárias, e admoesta todos os cristãos a simplicidade da fé. Pois é o bastante sabermos que Cristo desceu ao inferno, destruiu o inferno para todos os crentes e o livrou do poder da morte, do diabo, e da condenação eterna das fauces infernais.[105]
Desde a adoção da Fórmula de Concórdia, a Igreja Luterana em geral é a mais precisa na concepção do descensus. Por um lado, encara-se a doutrina seriamente; por outro, se evita os detalhes imaginários adicionados pela tradição. A posição luterana nos escritos confessionais, limita-se aos fatos que podem ser demonstrados pelas Escrituras. [106]
A simples citação do artigo IX da Fórmula de Concórdia seria suficiente para se concluir este trabalho monográfico. É a posição mais equilibrada e está em total acordo com o princípio das Sagradas Escrituras. É de fato inútil apegar-se a questionamentos desnecessários sobre aquilo não nos é revelado, ou fazer daquilo que é revelado obscuramente, uma novo ensino que não vai ao encontro da interpretação geral da verdade escriturística. Reafirmamos o valor da simplicidade cristã da fé.
A doutrina da descida de Cristo ao inferno serve para nós como consolo, quando se fala da proclamação da vitoria de Cristo sobre a morte e sobre Satanás (de acordo com passagens de apoio a I Pedro 3.18-20 , Ap 1.18 e Cl 2.15). Mas quando quer se dar um consolo ainda maior do que a Escritura permite, acenando com a possibilidade de salvação para aqueles que estavam mortos e condenados, surgem mais problemas que soluções.
A possibilidade de uma nova oportunidade de salvação àqueles ímpios condenados não pode ser concluída a partir de uma passagem obscura. Nunca uma possível doutrina se daria desta forma, contrariando outras passagens mais claras.
Quanto à posição inicial de Lutero em seus escritos, considera-se compreensível tendo em vista o contexto no qual ele estava inserido e a forte influência das tradições e ênfase no estudo da patrística. Apesar disso, ele nos deixou a chave para interpretações de passagens obscuras. A Escritura interpreta-se a si mesma.
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[1] GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 4 ed. João M. Bentes, trad. São Paulo, Vida Nova, 1991; situa a morte de Pedro em 64 A.D.
[2] MUELLER, Ênio R. I Pedro Introdução e Comentário. São Paulo, Vida Nova, 1988. p.32.
[3] GUNDRY, op. cit., p. 390.
[4] MUELLER, E. R., op. cit., p. 25.
[5] Id. Ibid., p. 41.
[6] PIEPER, Francis. Christian Dogmatics. Saint Louis, Concordia Publishing House, 1951,
v. 2, p. 315.
[7] Utilizamos a vigésima sétima edição do NOVUM TESTAMENTUM GRAECE. Erwin Nestle e Kurt Aland, ed. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 1993.
[8] CHAMPLIN, Russell N. O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Guaratinguetá, A Voz Bíblica Brasileira, s.d. V.6, p. 146.
[9] MUELLER, E.R., op. cit., p. 203.
[10] LENSKI, R.C.H. The Interpretation of the Epistles of St. Peter, St. John and St. Jude. Minneapolis, Augsburg Publishing House, 1966, p. 155.
[11] SELWYN, E.G. The First Epistle of St. Peter. New York, St. Martin’s Press, 1961, p.195.
[12] MUELLER, E.R., op. cit., p. 204.
[13] SCHARLEMANN, M.H. Toward Tomorrow. Saint Louis, Concordia, 1960, p. 102.
[14] SELWYN, E.G., op. cit., p. 196.
[15] MUELLER, E.R., op. cit., p. 203.
[16] SCHARLEMANN, E.G., op. cit., p. 102.
[17] LENSKI, op. cit., p. 156.
[18] DAVIDS, P.H. The First Epistle of Peter. In: The New International Commentary on the New Testamment. F. F. Bruce, ed. Grand Rapids, William B. Eerdmans, 1990, p. 137.
[19] MUELLER, E.R., op. cit., p. 206.
[20] BARTH, G. A Primeira Epístola de Pedro. São Leopoldo, Sinodal, 1967, p. 90.
[21] SELWYN, E. G., op. cit., p. 197.
[22] LENSKI. op. cit., p. 160.
[23] ROEHRS, Walther R. e FRANZMANN, Martin H. Concordia Self-study Commentary. Saint Louis, Concordia, 1979, p. 263.
[24] SCHARLEMANN, M., op. cit., p. 104.
[25] SEEBASS, H. Carne. In: Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Colin Brown, ed. São Paulo, Vida Nova, 1989, v.1, p. 359.
[26] SCHARLEMAN, M., op. cit., p. 104.
[27] Id. Ibid.
[28] De acordo com BROWN, C. Alma. In: Dicionário Internacional de teologia do Novo Testamento, v.1, p. 154, no Novo Testamento psyche, “alma”, também é sede de vida, ou a própria vida.
[29] PEARSON, J. An Exposition of The Creed. 2 ed. Oxford, University Press, s.d., v.1, p. 271.
[30] SELWYN, E. G., op. cit., p. 197.
[31] ROEHRS, FRANZMANN, op. cit., p. 263.
[32] SELWYN, E. G., op. cit., p. 197.
[33] SCHARLEMANN, M., op. cit., p. 105.
[34] LENSKI, op. cit., p. 162 e PIEPER, op. cit., p. 314.
[35] ROEHRS, FRANZMANN, op. cit., p. 263.
[36] MUELLER, E. R., op. cit., p. 209.
[37] DUNN, J. D. G. Espírito. In: Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 2, p. 128.
[38] HARRISON, E. F. Espíritos em Prisão. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Walther Elwell, ed. Gordon Chown, trad. São Paulo, Vida Nova, 1988, v. 2, p. 60.
[39] SMALLEY, S. S. Espíritos em Prisão. In: Novo Dicionário da Bíblia. J. D. Douglas, ed., São Paulo, Vida Nova, v.1, p. 549.
[40] MUELLER, J. T. Notes on Christ’s Descent into Hell. Concordia Theological Monthly, Saint Louis, Concordia, XVIII, ago. 1947, p. 612; PIEPER, op. cit., p. 315.
[41] MATTHEW HENRY. A Commentary on the Whole Bible. Iowa Falls, World Bible Publishers, p. 1026.
[42] MUELLER, J. T., op. cit., p. 305-306.
[43] SCHARLEMANN, op. cit., p. 107.
[44] MUELLER, J. T., Notes on Christ’s Descent into Hell, op. cit., p. 612.
[45] SCHARLEMANN. M., op. cit., p.109.
[46] MATTHEW HENRY, op. cit., p. 1026.
[47] MUELLER, E. R. op. cit., p. 209.
[48] HENRY, Matthew, op. cit., p. 1026.
[49] FEINER, Johannes e LOEHRER, Magnus. Ida ao Encontro dos Mortos. In: MYSTERIUM SALUTIS: Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica. Petrópolis, Vozes, 1974, v. III/6. p. 99.
[50] BLOESCH, D.G. Descida de Cristo ao inferno (Hades). In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 2, p. 415.
[51] PIEPER, F. Christian Dogmatics, v. 2, p. 316.
[52] MUELLER, E.R., op. cit., p. 210.
[53] SELWYN. op. cit., p. 200.
[54] LENSKI, op. cit., p. 166.
[55] DAVIDS, op. cit., p. 140-41.
[56] MUELLER, E.R., op. cit., p. 212.
[57] id. ibid., p. 212.
[58] LENSKI, op. cit., p. 163.
[59] MUELLER, E.R., op. cit., p. 215.
[60] ROEHRS e FRANZMANN, op. cit., p. 263.
[61] ROTTMANN, J. H. Vem, Senhor Jesus: Apocalipse de São João. Porto Alegre, Concórdia, 1993, p. 286-87.
[62] SELWYN. op. cit., p. 201.
[63] LENSKI. op. cit., p. 164.
[64] BLOESCH, op. cit., p.415.
[65] LENSKI, op. cit., p. 165.
[66] MUELLER, J.T. Notes on Christ’s Descent into Hell, op. cit., p. 615.
[67] LENSKI, op. cit., p. 167.
[68] CHAMPLIN, R. N., op. cit., p. 153.
[69] MUELLER, J. T. Notes on Christ’s Descent into Hell. op. cit., p. 613.
[70] Selwyn aponta para as várias interpretações a respeito dos “mortos” no v.6: (1)todos os mortos;(2)todos os que morreram no tempo do Dilúvio;(3)aqueles que morreramm no martírio, tanto no tempo de Pedro como em épocas anteriores;(5)cristãos que haviam morrido.
[71] LENSKI, op. cit., p. 185.
[72] BARTH, G., op. cit., p. 97.
[73] LENSKI, op. cit., p. 186.
[74] Citado por DAVIDS, op. cit., p. 153.
[75] MUELLER, E.R., op. cit., p. 232.
[76] SELWYN, op. cit., p. 214.
[77] Id. Ibid.
[78] LENSKI, op. cit., p. 187; J.T. MUELLER, Dogmática Cristã, v 1, p. 304.
[79] BARTH, G., op. cit., p. 97.
[80] MUELLER, E. R., op. cit., p. 233.
[81] ROTTMANN, J. H., op. cit., p. 290.
[82] BLOESCH, D. G. Descida ao Inferno (Hades). In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, op. cit., p. 415.
[83] MUELLER, E. R., op. cit., p. 208.
[84] BARTH, G., op. cit., p. 98-99.
[85] SCHARLEMANN, op. cit., p. 98.
[86] SCHAFF, P. The Creeds of Christendom: The History of Creeds. 6 ed. New York, Harper & Brothers, s.d., v. 1, p. 19.
[87] Na introdução aos Três Símbolos Ecumênicos, no Livro de Concórdia, diz-se que o texto do Credo Apostólico que temos agora data do século VIII, e que se trata de uma revisão do Credo Romano. Este, por sua vez, tinha por trás de si várias formulações doutrinárias que revelam sua relação com raízes encontradas no próprio Novo Testamento.
[88] SCHAFF, P., op. cit., p. 19.
[89] SCHARLEMANN, M., op. cit., p. 98.
[90] SCHAFF, P., op. cit., p. 21.
[91] SCARLEMANN, M., op. cit., p. 98.
[92] Id. Ibid.
[93] Id. Ibid.
[94] Id. Ibid.
[95] Sobre a data em que foi escrito o comentário de I Pedro, consultar a introdução ao volume 30 do Luther’s works, American Edition.
[96] LUTHER, M. Sermons on the First Epistle of St. Peter. In: Luther’s Works, Jaroslav Pelikan, ed. Saint Louis, Concordia, v. 30, p. 114. Doravante abreviado por LW.
[97] SCHARLEMANN, op. cit., p. 98, e COYNER, Conrad. Descensus ad Inferos. Saint Louis, s. ed., 1943; afirmam que este comentário foi escrito em 1545. Assim sendo, esta seria a opinião final de Lutero sobre o assunto.
[98]Citado em MUELLER, J. T., Notes on Christ’s Descent into Hell, op. cit., p. 615.
[99] COYNER, C., op. cit., p. 14.
[100] SCHARLEMANN, op. cit., p. 108.
[101] Existe alguma discussão quanto à data em que foi escrita esta exposição de Gênesis. Ver LW 1.
[102] LW 2, 143.
[103] MUELLER, J. T. Notes on Christ’s Descent into Hell, op. cit., p. 616.
[104] LIVRO DE CONCÓRDIA. 4 ed. Arnaldo Schüler, trad. São Leopoldo / Porto Alegre, Sinodal / Concórdia, 1993, p. 64.
[105] Id. Ibid., p. 529.
[106] SCHARLEMANN, M., op. cit., p. 100.