1 definição de luto
Antes de tudo, luto não se trata de um estado. Jamais se encontra alguém no estado de luto. E da mesma forma, ele não pode ser visto como um estado, ou seu real sentido e função estarão sendo deixados de lado.
Luto é um processo, processo pós-perda pelo qual a pessoa deve passar, incluindo seus estágios e características. O luto se caracteriza pela perda de alguém que muito se ama. Essa perda não significa unicamente a morte. Existem muitas pessoas por aí, no dia a dia que estão de luto por causa de pessoas bem vivas! Outras perdas que podem desencadear o processo de luto podem ser o divórcio, amputação, perda do emprego e perdas experimentadas por vítimas de violência. Quando de uma hora para outra deixamos de ter alguém ou algo que prezamos muito ao nosso lado ou em nossa vida, entramos no processo que costumamos chamar de luto, que tem suas características próprias, que ao contrário do que muitos pensam, devem ser instigadas e jamais abafadas.
Luto e perda estão intimamente ligados. O luto tem sido comparado à doença física. Tanto o luto como a doença física pode levar um grande período de tempo para curar, e ambos incluem aspectos emocionais e físicos. Temos a citação de uma assistente social que compara a enfermidade física ao luto, Bertha Simos escreve, “ambos podem ser autolimitados ou requerer intervenção de outras pessoas. E, em ambos, a recuperação pode variar desde um retorno completo ao estado preexistente de saúde e bem-estar, uma recuperação parcial, uma melhora do crescimento e da criatividade, ou ambos podem inflingir dano permanente, declínio progressivo e até a morte”.
2 apego e perda
Antes de explicar o que é uma perda, torna-se necessário explicar o que é o apego e a necessidade do ser humano de relacionar-se com outros indivíduos e os relacionamentos que ele cria para a sua necessidade de viver.
Os relacionamentos não se desenvolvem apenas para satisfação de alguns instintos biológicos, como alimentação e instinto sexual. Na verdade o laço de apego entre as pessoas ocorre de uma necessidade de segurança e proteção. Iniciam cedo na vida do ser humano e normalmente duram durante toda a vida. Os pais são os primeiros vínculos de apego que criamos. Conforme a criança cresce, ela amplia seu raio de pessoas e de relacionamentos, ampliando e somando pessoas com as quais se apegam, mas uma característica unicamente na espécie humana se trata do fato de os filhos, mesmo depois de adultos, sempre procurarem refúgio e segurança nos pais, independente da idade.
É essencial ao ser humano se relacionar, abrir seus horizontes em relação a outras pessoas, e se relacionar com elas. O ser humano é um ser que não sabe viver totalmente isolado dos demais. Alguns têm maior ou menor tendência a ser sociáveis e abertos a relacionamentos. Mas uma coisa é certa, por menor que seja, a pessoa criar um grupo de vínculos de apego com pessoas ao seu redor, sejam amigos, namoradas, pessoas que são idealizadas, etc.
Quando estas e outras figuras essenciais de apego faltam ou desaparecem, isso desencadeia um forte protesto emocional que chamamos de luto.
Se a característica do comportamento de apego é manter o laço afetivo, situações que colocam em risco este laço dão origem a reações características do luto. Quanto maior o laço, maiores as reações a perda.
Todas as pessoas sofrem com a perda, seja qual ela for, de uma forma ou de outra. Antropologistas apontam que qualquer indivíduo, sociedade em qualquer época, e em qualquer lugar do mundo, sofre por causa da perda de lago muito querido e de grande apego. E que também se deseja alcançar esse objeto perdido de qualquer forma novamente. Mas o surpreendente é que a patologia do luto é mais comum em sociedades alfabetizadas do que nas não-alfabetizadas.
3 estágios do luto
Conforme consta no título de nosso trabalho, trataremos sobre a pastoral do luto. Falaremos principalmente sobre o tratamento pastoral aplicado a uma pessoa que passa pelo processo de luto, e não a pessoa que está por morrer. No presente item, falaremos sobre os estágios pelo qual o enlutado passa. No entanto, nessa parte, também queremos abrir uma brecha, onde iremos falar sobre os estágios pelo qual uma pessoa passa após receber a notícia que ela morrerá.
É importante que o pastor tenha conhecimento acerca dos estágios pelo quais os enlutados passam. Quando o pastor conhece o processo pelos quais os enlutados passam, ele tem a possibilidade de lhes ministrar um tratamento mais eficiente. No entanto, também é importante que o pastor conheça os estágios pelos quais passa uma pessoa após receber a notícia de sua morte. Essa pessoa que está prestes a morrer também é um filho de Deus, que está passando por momentos de grande confusão e angústia. O paciente terminal também é alguém que necessita de consolo, consolo esse que, se o pastor conhecer os estágios pelos quais a pessoa passa, é mais fácil de ser oferecido, pois o pastor estará “entendendo” um pouquinho da angústia sofrida por essa pessoa. Além disso, o pastor poderá explicar para a família dessa pessoa que as reações que ela tem (como por exemplo, por vezes, não querer ver ninguém de sua família) fazem parte do processo pelo qual ela está passando.
3.1 Os Cinco Estágios Antes da Morte
Primeiro Estágio: Negação
Ao receber a notícia de sua futura morte, qual é a primeira reação do paciente? É negar a realidade de sua futura morte. Conforme Kübler-Roos (1991, p. 50), a negação funciona como uma espécie de pára-choque depois de notícias inesperadas ou chocantes. É uma defesa temporária, deixando com que o paciente se recupere com o tempo.
Segundo Estágio: Ira
Após o paciente ter assimilado a realidade de sua morte, o paciente sente ira porque ele irá morrer. Essa ira manifesta-se em qualquer ambiente, com qualquer pessoa, muitas vezes, “sem que se tenha motivo” para a mesma. Por que o paciente sente ira? Isso varia de pessoa para pessoa. De um modo geral, afirma-se que essa raiva é fruto da frustração das pessoas por causa de seus projetos de vida inacabados[1]. A raiva também pode vir porque essa pessoa sempre esteve no controle de todos os setores de sua vida, e agora, está diante de uma situação que foge ao seu controle.[2]
Terceiro Estágio: Barganha
Após passar pelo estágio de raiva, e sentir que a situação de sua doença não mudou, o paciente faz uso de uma estratégia chamada barganha. Na barganha, o paciente impõe uma meta nobre para a sua vida, ou faz alguma promessa a Deus. Por meio de truques como esse, ele espera ter um tempo de vida maior. É uma tentativa de adiamento da morte por bom comportamento.[3]
Quarto Estágio: Depressão
Quando o paciente não pode mais negar sua doença, sofrendo transformações físicas drásticas, onde não consegue mais se esconder a realidade da futura morte, o paciente passa pelo estágio da depressão. Ele passa por depressão por causa das perdas que sofre, entre elas, a perda de alguma de suas características corporais.[4]
Quinto Estágio: Aceitação
O paciente já passou por estágios no qual irou-se muito por causa de suas perdas, e também já sentiu uma imensa tristeza por causa delas. A aceitação é quase uma fuga de sentimentos. É como se a dor tivesse esvanecido e a luta tivesse cessado (Kübler-Roos, p. 120).
É importante ressaltar que o sentimento de esperança é algo que persiste em todos os estágios. Até os pacientes mais realistas têm a esperança, por mais remota que seja, da possibilidade de cura. Quando um paciente não dá mais sinal de esperança, geralmente é prenúncio de morte eminente.[5]
3.2 As Quatro Tarefas do Processo de Luto
Como falamos acima, luto não é um estado, mas é um processo. Dentro desse processo, há algo que chamamos de tarefas do processo de luto. Somente após a realização dessas tarefas, a pessoa pode-se considerar curada do luto. Por vezes, algumas pessoas permanecem durante longo tempo em uma dessas tarefas. A tarefa do pastor consiste em ajudar as pessoas na superação das tarefas do luto.
Primeira Tarefa: Aceitar a Realidade da Perda.
Quando alguém morre, mesmo se que a morte é esperada, há sempre a sensação de que ela não aconteceu. A primeira tarefa do processo de luto consiste em aceitar a realidade de que a pessoa esta morta e de que ela não retornará.[6] Nega-se a morte com a esperança de que o morto retornará algum dia.
Aceitar a realidade da morte não envolve apenas o aspecto intelectual, mas também o emocional.[7] Por isso, a sua aceitação é difícil. Um exemplo claro disso diz respeito aos pais de um garoto que sempre esperavam pelo ônibus escolar no qual seu filho voltava da escola. Mesmo após a morte do garoto, quando eles ouvem o ronco do ônibus, eles sentem que o menino está retornando. Os pais sabem que seu filho está morto, mas os seus sentimentos não aceitam e negam essa realidade.
O pastor pode ajudar bastante no cumprimento dessa tarefa. Ele tem que deixar que enlutado fale sobre a morte da pessoa querida, ao invés de fugir desse assunto. A partir do momento que o enlutado fala sobre a morte da pessoa, aos poucos, ele passa a aceitar essa realidade. Outro fator que ajuda no cumprimento dessa tarefa é o ato do enlutado assistir ao velório e enterro da pessoa, pois ali, naquele momento, a morte daquela pessoa é algo concreto e inegável.
Segunda Tarefa: Elaborar a Dor da Perda.
Não é incomum ver pessoas que não demonstram dor no velório de alguma pessoa que lhes era muito valiosa. Isso acontece, ou porque o enlutado ainda não aceitou a realidade da perda, ou porque ele não está sentindo nenhuma dor pela morte da pessoa.
É impossível perder alguém a que se tenha sido muito ligado sem passar por algum grau de dor.[8] Mas não é raro vermos enlutados fugirem dessa dor. Para isso, eles voltam ao passado, quando a pessoa era viva, estimulando pensamentos que lhe tragam alegria acerca da pessoa que morreu, fugindo da dor do presente.
No entanto, o enlutado não está no passado, mas ele está no presente, onde a morte da pessoa é algo concreto e real. É necessário que o enlutado passe por uma profunda dor para que ele possa curar essa doença chamada luto. Se o enlutado não passar por essa dor, o luto pode tornar-se algo complicado, e ele poderá carregar essa dor pelo resto de sua vida[9].
Para ajudar no cumprimento dessa tarefa, o pastor poderá fazer com que o enlutado fale acerca da realidade da perda. Quando o enlutado falar acerca dessa realidade, o sentimento de dor virá automaticamente. É preciso deixar que o enlutado realmente exponha seus sentimentos, sua dor. Dessa forma, o enlutado poderá superar essa tarefa do processo de luto.
Terceira Tarefa: Ajustar-se a um Ambiente Onde está faltando a Pessoa que Faleceu.
A terceira tarefa percebe-se de forma mais clara na relação de um casal, ou mesmo de uma família. Por exemplo: o marido cuidava das finanças da casa, provendo o sustento da família, e a esposa cuidava apenas dos filhos pequenos, e não trabalhava fora. O marido faleceu. Alguma pessoa terá que prover o sustento dessa família. Provavelmente, a viúva ira trabalhar fora, deixando seus filhos aos cuidados de terceiros (avós, babá, creche...).
Esse é apenas um pequeno exemplo de como ajustar-se a esse “novo mundo”, sem a pessoa falecida. Algo interessante nessa tarefa é que a pessoa que fica geralmente não está ciente, por algum tempo depois da perda, de todos os papéis desempenhados pela pessoa que faleceu.[10] Somente com o tempo, no dia-a-dia sem o falecido, o enlutado realmente se dará conta de tudo o que o falecido fazia.
Por vezes, a execução da terceira tarefa é muito difícil, pois o enlutado pode não conseguir realizar plenamente os papéis executados pelo morto.
Quarta Tarefa: Reposicionar em Termos Emocionais a Pessoa que Faleceu e Continuar a Vida
É muito comum, após a morte de uma pessoa querida, que o enlutado pense nela durante grande parte do dia. Entre outras lembranças, o enlutado relembra aquelas que lhes são mais caras, onde ele passou por momentos de grande felicidade com o ente agora falecido. É como se o enlutado estivesse vivendo, em pensamento, no passado, deixando de viver o presente por causa de suas lembranças.
O enlutado não deve esquecer os sentimentos que teve por essa pessoa, e muito menos tentar substituí-la por outra. No entanto, o enlutado deve colocar a pessoa falecida no seu devido lugar, de pessoa morta. Conforme afirma Worden (p. 29), essa tarefa não consiste em que o enlutado desista de sua relação com a pessoa que faleceu, mas que encontre um local adequado para o falecido em sua vida emocional – um local que irá capacitá-lo a continuar a viver bem no mundo.
Após executada essa última tarefa, podemos dizer que o enlutado está curado da doença chamada luto. O ex-enlutado continuará sentindo saudades do morto, mas conseguirá viver normalmente, visto que ele assimilou a morte e conseguiu colocar o morto em seu devido lugar no que diz respeito as suas relações.
É importante que o pastor conheça os estágios do luto. Pois, a partir desse conhecimento, se o enlutado “estacionar” em algum desses estágios, o pastor poderá ajudá-lo a superá-lo, conversando com ele sobre a realidade da perda e como continuar vivendo sem a pessoa falecida.
4 os processos do luto[11]
Este capítulo tratará os diferentes processos do luto, por qual uma pessoa poderá passar. Um deles é conceituado como o luto complicado, o outro é o luto não-complicado, e por último o luto antecipatório.
4.1 Luto Complicado
Antes de abordar o luto complicado, é preciso que tenhamos a definição de tal, para então melhor o compreender.
4.1.1 O que é luto complicado?
Worden conceitua o luto complicado da seguinte forma:
“É a intensificação do luto até o ponto no qual a pessoa se sente sobrecarregada, recorre ao comportamento mal-adaptado ou permanece interminavelmente num estado de luto sem progressão do processo de luto em direção ao seu término. Envolve processos que não evoluem progressivamente em direção à assimilação ou acomodação.”[12]
O luto complicado também é chamado de: luto patológico; não-resolvido; crônico; retardado ou exagerado.
4.1.2 Razões que causam o luto complicado
Há vários fatores que desencadeiam um luto complicado. Vamos agora, destacar alguns deles.
Ø Fator relacional: define o tipo de relacionamento que a pessoa tinha com o falecido. O tipo mais freqüente de relacionamento que impede as pessoas de terem um luto adequado é o relacionamento altamente ambivalente com hostilidade não-expressa, ou seja, aquele estado de quem, em determinada situação apresenta sentimentos opostos. E isto inibe o luto e prevê quantidades excessivas de raiva e culpa que trazem dificuldades para a pessoa enlutada.
Outro tipo de relacionamento que causa dificuldade é o narcisista, onde o falecido representa uma extensão do self da pessoa enlutada. Admitir esta perda necessitaria defrontar-se com a perda de uma parte de si mesma, e a perda é então negada. Neste caso sentimentos de desamparo é o autoconceito de ser uma pessoa desamparada tendem a sobrecarregar quaisquer outros sentimentos ou qualquer habilidade para modular este autoconceito negativo com um mais positivo.
Ø Fator circunstancial: há circunstâncias específicas que impedem ou dificultam o luto de uma pessoa, como: quando a perda é incerta: soldado ausente em ação. Sua mulher não sabe se está vivo ou morto. Ou também, quando há mulheres que ainda acreditam que seus maridos estejam vivos em algum lugar e ficam agarradas nesta crença.
Ø Fator histórico: é um luto não resolvido no passado que se torna presente agora. Também pessoas que tiveram depressão no passado correm um risco maior de reações complicadas. Há evidências que pessoas que apresentam luto complicado sentiram-se inseguranças a suas ligações da infância e erram ambivalentes com as mães – seu primeiro objeto amoroso.[13]
Ø Fator de personalidade: está relacionado com o caráter e a forma como ele afeta a habilidade da pessoa ao lidar com o estresse emocional. Pessoas que não toleram sentimentos de dependência e vivem de forma superficial, podem ser atingidos de forma mais pesada quando da perda maior, na medida em atinge seu sistema de defesas. Pessoas que se consideram como o “forte” da família, não se permitem vivenciar sentimentos necessários para uma adequação resolvida de perda.
Ø Fator social: quando a perda é não socialmente comentada, em casos de suicídio ou acidente. Esta conspiração de silêncio causa muitos danos às pessoas enlutadas que podem precisar falar com os outros sobre o luto. E neste caso, grupos de apoio a suicidas é importante.
Quando a perda é socialmente negada, ou seja, quando agem como se a perda não tivesse acontecido, como é o caso do aborto.
4.1.3 Reações do luto complicado
O luto complicado pode se apresentar de diversas formas. E são denominadas de: crônicas, retardadas, exageradas e mascaradas.
Ø Reação de luto crônica: tem duração excessiva e nunca chega ao término satisfatório. As pessoas sentem saudades de uma relação que nunca existiu, achando que agora deveria existir. E sentem-se inseguros e incapazes de viver por conta própria, necessitando de ajuda e de estímulo para formar novas relações.
Ø Reação de luto retardada: quando o luto não foi resolvido na época da perda original, é levado adiante e sentido na perda atual. A pessoa teve reação emocional na época da perda, mas não o suficiente para a perda.
Ø Reação de luto exagerada: a pessoa está ciente de que os sintomas e condutas que está tendo têm relação com a perda e buscam terapia por sua experiência ser excessiva e incapacitante. Incluem transtornos psiquiátricos maiores depois da perda, exemplo: depressão clínica. Também é caracterizado pela ansiedade sentida como ataques de pânico ou desenvolvimentos de fobias. E ainda, pelo alcoolismo ou outro abuso que se desenvolve.
Ø Reação de luto mascarada: pode ser mascarada por sintomas físicos. Em que a pessoa pode apresentar sintomas físicos parecidos com o falecido na última vez que adoeceu. Worden afirma que são também chamados de “doenças facsímile”: estes casos não apresentam patologia orgânica e os sintomas apresentados depois do luto foram tratados em terapia.[14]
E através de sintomas psiquiátricos como a depressão não explicada ou algum tipo de atuação ou outra conduta mal-adaptada. Pessoas que não expressam sentimentos de forma aberta, o luto não manifesto, se manifestará completo de outra maneira.
4.1.4 Manifestações do luto complicado
Worden apud Lazare (1979) apresenta aspectos-chave que indicam o luto complicado. Destacaremos alguns deles:
Ä A pessoa não consegue falar do falecido sem apresentar sentimentos de lutos intensos e recentes, mesmo que a pessoa já tenha falecido há muito tempo.
Ä A pessoa que passou pela perda não quer mexer em pertences do falecido. Deixam o ambiente assim como era quando estava vivo.
Ä Mudanças radicais no seu estilo de vida depois da perda, ou exclusão de pessoas de sua vida.
Ä Longa história de depressões sub-clínicas, por causa de culpa persistente e baixo auto-estima. Ou o oposto: falsa euforia.
Ä Imitar a pessoa falecida. Assumir características de sua personalidade das quais não gostava antes. Por meio da imitação o enlutado tenta reparar a rejeição e obter a restituição.
Ä Tristeza não justificada que ocorre em determinada época. Provavelmente quando o enlutado e o falecido estavam juntos: feriados e aniversários.
Ä Fobia da doença ou morte. Se a pessoa morreu de câncer, fobia de câncer...
Ä Conhecimento das circunstâncias da morte, como ficou na época da perda. Se evitou ir ao túmulo ou velório pode ser luto não resolvido.
4.2 Luto Não-Complicado
O luto não-complicado é também conhecido como luto normal. Pois as reações diante do luto são normais e não fogem da regra. Pode-se dizer que a negação da morte em que a sociedade impõe não é tão sentida.
Mas as manifestações do luto não-complicado ou normal podem ser através de sentimentos:
Ä Tristeza: é o sentimento mais comum encontrado no luto.
Ä Raiva: geralmente é sentido depois de uma perda. Ela pode ser um dos sentimentos mais confusos para a pessoa que fica, e por isso está na raiz de muitos problemas no processo de luto. A raiva tem duas origens: 1) de um sentimento de frustração (a pessoa não podia fazer nada para evitar a morte) e 2) de um tipo de vivencia regressiva que ocorre depois da perda de alguém próximo.
Ä Culpa e auto-recriminação: são sentimentos comuns àqueles que sobrevivem: culpa por não ser suficientemente amoroso.
Ä Ansiedade: a ansiedade da pessoa que ficou pode variar desde uma leve sensação de insegurança a um forte ataque de pânico, sugerindo uma relação de luto patológico. A ansiedade tem duas origens: 1) as pessoas que ficam têm medo de não serem capazes de cuidar de si mesmas; e 2) a relação com um forte sentido de consciência da própria morte.
Ä Solidão: é um sentimento freqüentemente expresso pelas pessoas que ficam e que estavam habituadas a um relacionamento dia-a-dia com o ente perdido.
Ä Fadiga: pode ser algumas vezes sentido como apatia ou indiferença.
Ä Desamparo: está próximo da ansiedade e presente nas primeiras fases da perda.
Ä Choque: ocorre com mais freqüência no caso de morte súbita.
Ä Anseio: o anseio é uma resposta normal ao luto. Quando diminui, pode ser um sinal de que o luto está terminando.
Ä Emancipação: pode ser um sentimento positivo depois da morte (entre casais, há a possibilidade de se um vier a falecer, o outro terá que assumir algumas de suas tarefas, por exemplo: o marido aprender a cozinhar se a esposa faleceu).
Ä Alívio: muitas pessoas sentem alívio depois da morte de uma pessoa que sofria uma doença prolongada e dolorosa.
Ä Estarrecimento: é a falta de sentimentos.
As manifestações do luto também podem se dar através de sensações físicas, tais como: vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização, falta de ar, fraqueza muscular, falta de energia e boca seca.
Há ainda manifestações do luto no padrão de pensamentos dos enlutados. O lado cognitivo da pessoa enlutada é afetado. Certos pensamentos são comuns nas primeiras fases do luto e geralmente desaparecem depois de pouco tempo. Mas alguns pensamentos persistem e desencadeiam sentimentos que podem levar à depressão ou ansiedade. Tais como: a descrença, confusão, preocupação, sensação de presença e alucinações.
Além disto, certas manifestações do luto podem interferir no comportamento do enlutado. São reações normais do luto e que em geral desaparecem por si só como o tempo. Por exemplo: distúrbios do sono e do apetite, comportamento “aéreo” (tendendo a esquecer as coisas), isolamento social, sonhos com a pessoa que faleceu, evitar coisas que lembrem a pessoa que faleceu, procurar e chamar pela pessoa, suspiros, hiperatividade, choro, visitar lugares ou carregar objetos que lembrem a pessoa que faleceu.
4.2.1 Fatores Determinantes do Luto
A experiência de luto está relacionada com o nível de desenvolvimento do indivíduo. As sete categorias mais importantes dos fatores determinantes são:
1º Quem era a pessoa: se você quiser prever como uma pessoa irá reagir a perda, você tem de saber alguma coisa sobre a pessoa que faleceu.
2º A natureza da ligação: além de saber quem era a pessoa, é preciso saber algo sobre a natureza da ligação: a) força da ligação; b) a segurança da ligação; c) ambivalência na revelação e d) conflitos com a pessoa falecida.
3º Forma da morte: tradicionalmente as mortes foram catalogadas segundo as categorias NASH: natural, acidental, suicida e homicida.
4º Antecedentes históricos: se já teve perdas anteriores.
5º Variáveis de personalidade: as variáveis incluem a idade e o sexo da pessoa, o quanto inibe seus sentimentos, se lida bem com a ansiedade e como lida com situações estressantes.
6º Variáveis sociais: o luto é vivenciado de maneiras diferentes conforme o costume e a cultura de cada país. Por isso, para prever adequadamente como uma pessoa irá reagir no luto, precisa-se saber alguma coisa sobre a vida social, étnica e religiosa da pessoa enlutada.
7º Estresses concorrentes: certas mudanças depois da morte do ente querido são inevitáveis e afetam o luto. O enlutado é obrigado a decidir ou assumir responsabilidades que antes não precisava.
4.3 Luto Antecipatório
O luto antecipatório ocorre antes da perda real. Surge então a pergunta: pessoas que ficam de luto antes da morte, lidam melhor com a morte? Não necessariamente.
Há a consciência da aceitação de que a pessoa irá morrer. Entretanto, podem nutrir esperanças e reforçar a negação frente a extremos de evidência visual.
Nesta fase a ansiedade é maior. Há também um ensaio de papéis, como: onde vou morar? Com quem ficam as crianças? O que vou fazer?
A pessoa que ainda está viva passa a ser “incomodo” para os familiares, especialmente se necessitam de muitos cuidados; pois os familiares não se sentem livres para fazer o que querem ou eram acostumados.
O recuo dos familiares com atitudes, como: relembrar, falar em voz baixa e comportar-se de modo pouco natural, pode comunicar ao paciente, abandono ou sepultamento antes da morte. O contrário também, como um aproximamento muito grande e o cuidado excessivo, que atrapalha o serviço dos médicos.
É importante lembrar às pessoas que o luto antecipatório é a oportunidade para fazer coisas que tem vontade, antes que a pessoa morra.
Worden lembra que o doente também passa por este luto, pois ele perde muitos amigos e parentes de uma só vez. A antecipação da perda pode ser uma sobrecarga do paciente, e este recua e volta o seu rosto para a parede para lidar com o impacto disto.[15]
5 pastoral do luto
5.1 Negação da Sociedade e da Igreja
São muito raros os momentos nos quais pensamos que um dia vamos morrer, bem como são raros os momentos nos quais pensamos que, inevitavelmente, vamos passar por situações de luto. Lembramos que somos mortais apenas no momento em que nos deparamos com a morte a nossa frente, principalmente em velórios e em enterros de pessoas conhecidas.
A sociedade como tal ignora a realidade da morte. Mas, por quê? O homem não foi criado para morrer. O homem foi criado para viver. A morte não faz parte da existência humana como algo natural a ela. Ela passou a fazer parte da existência humana por causa do pecado. A morte é um problema que os seres humanos não conseguem resolver. Por causa disso, o homem ignora a realidade da morte, vivendo como se ela nunca fosse atingi-lo.
Podemos dizer, até certo ponto, que a ignorância da realidade da morte também atingiu as nossas igrejas. Raramente, em nossas igrejas, ouve-se um estudo bíblico ou um sermão a respeito da morte. Fala-se apenas da morte de Cristo, e que Cristo venceu a morte. Cristo realmente venceu a morte, mas a morte eterna. A morte temporal é um problema que continua atingindo e perturbando as pessoas.
Mas, qual a importância da igreja falar acerca da morte? Se a igreja falar sobre a morte, ela pode ajudar a preparar as pessoas a superarem situações de enfermidade terminal e de luto de forma menos dolorosa. Conforme nos afirma Collins (2004, p. 422):
“A preparação para a morte e a prevenção do luto patológico geralmente ocorrem na igreja e através dela. A ajuda pode vir através do aconselhamento pastoral, inclusive o aconselhamento visando o luto antecipado, por meio da pregação periódica de sermões sobre a morte e tópicos correlatos, nas aulas de Escola Dominical, em grupos de estudo que abordem questões ligadas à morte... Pode ser feita também uma preparação indireta, investindo no aperfeiçoamento da comunicação familiar, estimulando a sinceridade com amor, encorajando as pessoas a expressar seus sentimentos, e falando da morte sem reservas.”[16]
É importante ressaltar que Collins escreveu seu livro numa realidade norte-americana, aonde achamos, a partir dessa citação, que há um tratamento pastoral ao luto mais intenso que na realidade brasileira. A partir do momento em que a igreja falar sobre a realidade da morte, ela pode estimular as pessoas que estão vivenciando situações de morte e luto a falarem sobre essa situação. Collins nos relatou a seguinte situação: havia duas viúvas que eram muito amigas antes da morte de seus respectivos maridos. Elas freqüentavam o mesmo circulo social e também a mesma igreja. No entanto, o marido de uma delas veio a falecer de câncer. Durante o desenvolvimento da doença, eles falaram acerca da realidade da morte, de como ela enfrentaria a viuvez, entre outros. Já a outra viúva, perdeu o marido em um enfarte fulminante, não tendo eles a “oportunidade” de conversar sobre a morte. Enquanto a primeira viúva estava conseguindo reconstruir sua vida, a segunda viúva entrou em luto patológico. Ela trancafiou-se em casa, chorando o dia inteiro, sentindo pena de si mesma e relembrando situações do passado. Essa é a importância de falar acerca da morte nas igrejas: estimular as pessoas a enfrentarem o luto, e não a esconderem-se dele, pois, é apenas enfrentando o luto, conversando sobre ele, que as pessoas irão superá-lo.
5.2 Comunidade: Trabalho em Equipe
O luto envolve toda a pessoa: corpo, sentimentos, alma e o estilo de vida. E a melhor maneira para ajudar o enlutado é compreender aquilo que ele está passando; compreender suas reações. Que podem ser físicas, emotivas, espirituais e sociais.[17]
O segundo passo para achar conforto na aflição é reconhecer a realidade presente, a realidade da morte[18] e do pecado original. Vivemos uma “existência para a morte”, já que a morte é o fato certo da vida. No momento em que nascemos estamos prontos para morrer.[19]
O melhor que a igreja tem a fazer é ser honesta ao consolar os enlutados. Primeiro, deve tratar com a própria realidade da morte, cf. 2 Sm 14.14 (“porque temos de morrer e somos como águas derramadas na terra que já não se podem juntar; pois Deus não tira a vida, mas cogita meios para que o banido não permaneça arrojado de sua presença.”). E segundo, afirmar a fidedignidade de Deus, a morte faz com que os seres humanos se dêem conta de como são dependentes de Deus quando tudo mais falha. Sendo confortados pela única fonte real de esperança no mundo, o amor gracioso de Deus.[20]
O acompanhamento às pessoas enlutadas não deve ser apenas tarefa do pastor. A congregação existe para providenciar uma “rede social de sustentação”. Mas é parte da tarefa pastoral recrutar e treinar pessoas sensíveis e cuidadosas, capacitando-as a auxiliar membros enlutados.[21] Pois a presença de outros cristãos é um sinal visível do amor e da ação de Deus.[22]
Os enlutados não estão buscando respostas prontas das pessoas que os procuram para falar em lugar de ouvir. Eles querem compreensão, conforto e contato com pessoas que se importam.[23]
Por isso, a necessidade de um grupo de apoio a enlutados na comunidade, brevemente instruído e formado com pessoas que já vivenciaram isto. Porque o aconselhamento pastoral que pretende ser curativo necessita estar alicerçado na comunidade eclesial que pretende ser “comunhão dos santos”. A comunidade é o verdadeiro sujeito da poimênica cristã.[24]
E Hoch afirma que:
“a) nós luteranos perguntamo-nos autocriticamente se, apesar de enfatizarmos a doutrina do sacerdócio geral de todos os crentes, não estamos presos a um conceito de aconselhamento pastoral demasiadamente centrado no ministério ordenado... b) ...uma das principais tarefas dos pastores e das pastoras consiste na formação de colaboradores e colaboradoras voluntários da comunidade para serviços pastorais específicos. c) a formação de pequenos grupos que vivenciam situações similares de sofrimentos, como deficiência, luto ou desemprego, é um meio eficaz da Igreja se fazer presente em contextos de periferia urbana pobre. Temos percebido que pessoas deixam a nossa Igreja quando se sentem deixadas sós em situações agudas de crise. Por outro lado, onde se criam grupos de auto-ajuda com um perfil poimênico, dentro das comunidades, os laços de fidelidade dos membros para com sua igreja aumentam.”[25]
5.2.1 Grupo de Apoio a Enlutados
Este grupo pode funcionar de dois modos, primeiramente oferecer uma ajuda prática após o falecimento da pessoa, cuidando de certos detalhes práticos. E também, como um grupo que se reúne ocasionalmente para dar uma ajuda espiritual para o enlutado.
De maneira prática, é um grupo de pessoas que se coloca à disposição da família enlutada assim que fica sabendo do falecimento. Ele auxilia na contratação dos serviços funerários, providencia a certidão de óbito, o preparo do corpo, ornamentação da igreja, serve lanches e refeições para os parentes mais próximos e cuida das crianças.
Essa presença é importante para os enlutados, pois é a presença de irmãos na fé e não de uma empresa funerária prestadora de serviços eficientes, mas impessoal.[26]
E, além disso, este grupo pode ser um grupo de cura onde as pessoas se reúnem em torno de um mesmo sentimento, que é a dor, o luto pela perda de um ente querido, muito amado, que até então fazia parte de sua família. Sendo um grupo formado e coordenado por pessoas que já passaram por isto e querem ajudar outros a superar o luto.
Collins afirma que “grupos são usados porque existe um valor terapêutico provado para as pessoas que se reúnem para encorajar e auxiliar umas às outras.”[27]
Neste grupo de apoio espiritual, seria útil trabalhar as fases do luto. E mostrar ao enlutado que ele não está sozinho em sua dor, que tem pessoas que o compreendem porque tiveram perdas semelhantes. É necessário ter amor e compreensão, colocando-se ao lado das pessoas que sofrem perdas muitas vezes trágicas e prematuras e caminhar com elas.[28]
Um abraço amigo, um aperto de mão ou um minuto de nossa atenção são pequenos gestos que podem trazer uma nova vida a quem está sofrendo. O objetivo desse grupo é incentivar pessoas enlutadas a encontrarem novamente a alegria de viver.[29]
Este trabalho com enlutados é fundamental ajudar a pessoa a distinguir o que pode e o que não pode ser mudado na situação. Cf. Clinebell, a familiar “prece da serenidade” dos Alcoólicos Anônimos (de Reinhold Niebuhr) pode ser muito útil nesse aconselhamento:
“Concede-me a serenidade de aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem de mudar as coisas que posso mudar e a sabedoria de distingui-las.”[30]
5.2.2 A Criação de um Grupo de Apoio a Enlutados
A estratégia necessária para capacitar uma comunidade para atender àqueles que tiveram perda pessoal, apresenta três partes.
A primeira é informar os membros da comunidade, através de sermões, estudos bíblicos e programa de educação continuado, sobre a natureza e importância do trabalho de luto dentro da comunidade e como eles podiam criar condições para esta cura neles próprios, em suas famílias e amigos.
A segunda parte da estratégia consiste em treinar uma equipe leiga de poimênica para ajudar na assistência e apoio para pessoas enlutadas. Pois dentro de uma comunidade pode haver vários casos de crises diferentes, e o processo de recuperação pode ser longo para que um pastor trabalhando sozinho corresponda plenamente a essas múltiplas necessidades poimênicas.
A terceira parte da estratégia de ajuda para os enlutados está em o pastor constituir um grupo de cura dos enlutados. A participação num grupo desses pode ajudar a própria pessoa a concluir que seu próprio trabalho de luto bem como a aprender o auxilio a outras pessoas em situação semelhante.
E Clinebell afirma:
“Não consigo imaginar nada que um pastor ou uma congregação possa fazer, que tenha maior impacto terapêutico do que providenciar oportunidades regulares para que pessoas enlutadas participem de semelhante grupo.”[31]
5.3 Trabalho Pastoral Contínuo
Da mesma forma que o luto é um processo pelo qual a pessoa necessariamente deve passar para superar a perda, o trabalho pastoral deve ser contínuo junto com a pessoa enlutada.
O pastor não deve ser somente aquele personagem presente no funeral (no caso de luto por causa da morte de um ente querido). O pastor deve estar presente em todo o processo de luto, em cada passo, lembrando também, que a pessoa enlutada necessita de um tempo com ela mesma, momentos de solidão são essenciais neste processo, são momentos de reflexão e de conscientização da nova realidade.
O papel do pastor aqui é estar ao lado, lembrando o amor de Cristo que compreende, e mais importante, que promete um lugar especial, onde não há qualquer tipo de sofrimento, e que é eterno. É função do pastor também fazer com que a pessoa enlutada se depare com a realidade, pois ale a função do pastor, é responsabilidade da fé cristã falar e anunciar a todos, o significado da vida e da morte para um cristão. Negar ou não tocar no assunto é estar deixando a pessoa longe da realidade, enquanto o correto aqui é mostrar a pessoa que sua realidade irá mudar com a perda, e que ela, com a ajuda de Deus e de todos os irmãos da comunidade, aprenda a conviver com esta nova fase da sua vida, lembrando que a vida contínua, de uma forma diferente, mas precisa continuar. A aceitação dos sentimentos é um dos maiores apoios que um conselheiro pode dar.
O objetivo geral do aconselhamento no luto é estimular o desenvolvimento da personalidade do indivíduo, ajudá-lo a superar os problemas da vida com mais eficiência, e encorajá-lo diante da perda, e principalmente, levar o indivíduo a ter uma relação pessoal cada vez mais forte com Deus. E esse é um papel de todos os cristãos ( 1Ts 5. 11-14).
É interessante a atitude de comunidades que criam comissões ou equipes que atendem irmãos enlutados. No momento da perda a pessoa normalmente se sente desconcertada, e neste caso, uma equipe de apoio pode vir a calhar na resolução de problemas normais em um funeral (levando em consideração o contexto e a realidade de cada comunidade), bem como a fase de luto propriamente dita, estendendo o apoio e carinho com que Cristo realmente demonstra que devem viver e se auxiliarem os irmãos na fé, pois a própria fé estimula a compaixão, o apoio e o amor de verdadeiros irmãos.
O pastor deve ser uma figura compreensiva e carinhosa que demonstre confiança para que a pessoa enlutada o procure em momentos de angústia. Lei neste caso não tem função alguma, visto que a pessoa está defronte com a face mais tenebrosa da lei que é a morte. O mais puro e carinhoso Evangelho se faz necessário, visto que a pessoa compreenda que Deus, não é mal pelo fato de permitir que as pessoas morram, na verdade ele se preocupa conosco e justamente por isso, movido por seu amor, enviou Cristo para vencer a morte, embora se faça necessário ao ser humano passar por ela, mas Cristo garantiu àqueles que nele crêem, a eternidade.
O pastor deve estar atento aos sentimentos do enlutado. Sentimentos de culpa são comuns e devem ser tratados. A fé auxilia a pessoa, mas nem mesmo a confiança mais firme em Cristo pode anular a necessidade de passar pelo luto. O luto é necessário. Pessoas que se colocam em uma posição forte frente a morte de alguém querido, normalmente sofrerá mais tarde em maior intensidade, e normalmente necessitará de ajuda psicológica.
Pessoas que enfrentam o luto normalmente se fecham, e tornam-se inaptas a envolvimentos sociais, aqui, é essencial o trabalho da comunidade em aceitar e instigar a pessoa a envolver-se novamente com os irmãos. O pastor aqui deve recrutar e treinar a comunidade ou uma comissão, para enfrentar e trabalhar nestes casos específicos de apoio e auxílio no “dividir a carga” com a pessoa enlutada, criar grupos de debate e apoio onde pessoas que já tiveram esta experiência compartilhem suas experiências e realidade, como uma rede social de sustentação. Através destes aspectos, o enlutado perceberá o amor do próximo, da comunidade, e neste amor, refletido o amor de Cristo.
5.4 Reconstrução da Vida do Enlutado
Ninguém pode arrancar do enlutado a dor da perda de alguém muito querido, porque ninguém pode tirar do coração o amor. A melhor forma de ajudar o enlutado é compreendê-lo. Conforme Regauer, a incompreensão é a maior dificuldade que o enlutado enfrenta para readquirir o gosto pela vida que precisa continuar.[32]
A sociedade é voltada para o casal. E pessoas sozinhas sentem-se deslocadas, pois o relacionamento dos outros as faz sofrer. E assim, para evitar sofrimentos, o enlutado fica em casa e está se torna uma fonte de conforto e ao mesmo tempo ninho de tristeza.[33] A sociedade é relutante em dar permissão para que alguém expresse o luto; preferem isolar educadamente aqueles que choraram.[34]
Para superar a dor, o enlutado não deve só esperar ser compreendido, mas procurar companhia de outros que passaram por tais situações. É ajudando outros que se encontram em situação idêntica, que ele apressará sua cura.
O processo de luto não pode ser acelerado; o maior perigo é quando as pessoas se negam a entristecer. E por isso a ocasião da morte é um tempo em que o pastor tem responsabilidade maior.[35]
Os membros da congregação cristã foram chamados por Deus para cuidar uns dos outros e carregar as cargas uns dos outros (Gl 6.2). O pastor juntamente com as pessoas devem transmitir interesse em cuidado dos enlutados, cumprindo assim a vontade de Deus.[36] E uma maneira de reintegrar os enlutados na comunidade, são especialmente nas ocasiões festivas do ano, quando mais se sentem solitários.[37]
Isto implica desaprender inúmeras respostas habituais e aprender nova conduta para atender necessidades anteriormente cobertas pela pessoa falecida, e tomar inúmeras decisões sobre como lidar com novos problemas suscitados pela perda. Membros da igreja devem oferecer apoio e ajuda prática. Este apoio pode ser de diferentes formas: uma viúva que nunca lidou com finanças, ou um viúvo que nunca cozinhou; precisam de ajuda para aprender estas aptidões. Tanto o apoio emocional quanto o teste da realidade são necessários na medida em que pessoas enlutadas tomam decisões e precisam aventurar-se em novas experiências – como participar de reuniões sociais sem o companheiro. Dois sinais de que pessoas estão progredindo em direção ao processo de recuperação são o “dizer adeus” à pessoa perdida e reinvestir algo dessa energia em outros relacionamentos.[38]
Tanto o pastor, como a congregação precisa ajudar:
Ä Estar presente e disponível: dar apoio e expressar interesse nos feriados e datas especiais.
Ä Aceitar a expressão de seus sentimentos: mas não pressionar.
Ä Aceitar explosões de choro, ira, ou retraimento: mas estar a disposição.
Ä Ser ouvinte receptivo e atencioso e não censurar, condenar.
Ä Encorajá-lo a passar pelos rituais de velório e sepultamento.
Ä Orar pelo enlutado e o consolar com a Palavra de Deus (1 Ts 4.14,18; 2 Co 5.6,8; Jo 11.25; Jo 5.24 e Jó 19.25-27).
Ä CONCLUSÃO
Ä Procuramos apresentar neste trabalho, de forma sucinta, a pastoral do luto e todos os seus aspectos de acompanhamento, aconselhamento e principalmente de amor cristão.
Ä O luto não é um estado, pelo contrário, é um processo. E assim sendo, o pastor e comunidade devem engajar-se no trabalho junto aos enlutados para auxiliar-lhes neste processo de tempo indeterminado, mas que moldará toda a sua nova realidade diante da perda.
Ä Poderíamos falar muito nesta conclusão, mas acreditamos que o trabalho se auto explica, e dessa forma cabe ressaltar aqui a importância da pastoral do luto, e principalmente, do enlutado sentir-se amparado e consolado. E que através do amor dedicado pelos seus irmãos na fé, ele sinta sempre mais presente o amor, compreensão e certeza de que Cristo sem está com ele, e jamais o desampara.
Ä “Consolai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos reciprocamente, como também estais fazendo... exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, amparei os fracos e sejais longânimos para com todos.” 1 Ts 5.11;14.
[1] KÜBLER-ROOS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1991, p. 62.
[2] Ibidem, p. 65.
[3] Ibidem, pp. 62-63.
[4] Ibidem, pp. 95-96.
[5] Ibidem, p. 146-147.
[6] WORDEN, Willian J.. Terapia do Luto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998, p. 23.
[7] Ibidem, p. 24.
[8] Ibidem, p. 26.
[9] Ibidem, p. 26.
[10] Ibidem, p. 27.
[11] Este capítulo fundamenta-se na obra de: WORDEN, J. William. Terapia do Luto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. Este autor descreve o luto do lado clínico e psicológico. Também é interessante vermos como Lutero trata acerca da morte. Isto está registrado no seu escrito: “Um Sermão sobre a Preparação para a Morte”, que está na OSel 1, pp. 385-398.
[12] WORDEN, J. William. Terapia do Luto. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998, p. 89.
[13] Idem, p. 86.
[14] Idem, p. 92.
[15] Idem, p. 131.
[16] COLLINS, Gary R. Aconselhamento Cristão. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 406-407.
[17] REGAUER, Elmar. A Dor do Enlutado – Compreenda-o! Santa Maria: Departamento de Assistência Social, 1986, p 6-15.
[18] Idem, p. 16.
[19] LUTHERAN LAYMEN’S LEAGUE. Como Enfrentar a Morte. Porto Alegre: Concórdia, 1970, p. 3-5.
[20] WHITE, James F. Introdução ao Culto Cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1997, p. 239.
[21] KRAUS, George e MUELLER, Norbert H. Teologia Pastoral. [S. l.]: [S. e.], [199-?], p. 170.
[22] WHITE, James F. Introdução ao Culto Cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1997, p. 239.
[23] COLLINS, Gary R. Aconselhamento Cristão. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 349.
[24] HOCH, Lothar C. A cura como tarefa do aconselhamento pastoral. In: BOBSIN, Oneide e ZWETSCH, Roberto E. (orgs.). Prática Cristã: Novos Rumos. São Leopoldo, 1999, pp. 23 e 24.
[25] Idem, p. 24.
[26] SCHLENDER, Itamar Eloi. Desafios da Pós-Modernidade para a Formação de Comunidades Eclesiais Terapêuticas. In: HOCH, Lothar Carlos e NOÉ, Sidnei Vilmar (orgs.) Comunidade Terapêutica: cuidando do ser através de relações de ajuda. São Leopoldo: Sinodal, 2003, p. 21.
[27] COLLINS, Gary R.. Ajudando Uns aos Outros Pelo Aconselhamento. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 161.
[28] RIETH, Bruno F. Comunidade com o jeito de Jesus. Porto Alegre: Concórdia, 2002, p. 144.
[29] Idem, p.145.
[30] CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento Pastoral: Modelo Centrado em Libertação e Crescimento. São Paulo e São Leopoldo: Paulinas e Sinodal, 1987, p. 218.
[31] Idem, p. 220.
[32] REGAUER, Elmar. A Dor do Enlutado – Compreenda-o! Santa Maria: Departamento de Assistência Social, 1986, p. 2 (prefácio).
[33] Idem, p. 14.
[34] KRAUS, George e MUELLER, Norbert H. Teologia Pastoral. [S. l.]: [S. e.], [199-?], p. 170.
[35] WHITE, James F. Introdução ao Culto Cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1997, p. 241.
[36] KRAUS, George e MUELLER, Norbert H. Teologia Pastoral. [S. l.]: [S. e.], [199-?], pp. 170-171.
[37] WHITE, James F. Introdução ao Culto Cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1997, p. 241.
[38] CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento Pastoral: Modelo Centrado em Libertação e Crescimento. São Paulo e São Leopoldo: Paulinas e Sinodal, 1987, p. 217.