O Sacerdócio Universal dos Crentes
Rudi Zimmer
INTRODUÇÃO
Na abordagem do assunto seguiremos a seguinte
ordem: Começaremos a considerar as bases
vétero-testamentárias do sacerdócio. Após isto,
veremos o Novo Testamento, destacando o ofício
Sumo - Sacerdotal de Cristo e o sacerdócio de todos
os cristãos, distinguido-o do ofício pastoral. Finalmente,
abordaremos a necessidade de redescobrir em
toda a igreja o ensinamento bíblico-confessional
desta doutrina e efetivamente implementá-lo em
nossas congregações e na igreja como um todo.
I - O SACRAMENTO NO ANTIGO
TESTAMENTO
1.1. O QUE É UM SACERDOTE?
Ter sacerdotes não era característica apenas de
Israel, mas as religiões vizinhas da religião israelita
também possuíam pessoas designadas para tratar dos
assuntos religiosos, que eram chamadas de "sacerdotes".
Entre estes e os sacerdotes de Israel até havia
traços em comum.
Em Israel, porém, os sacerdotes recebem funções
que revelavam o caráter distintivo da religião de
Israel. (1) A primeira e primordial função dos sacerdotes
era a de ensinar a revelação recebida da
parte de Deus, o oráculo sagrado. (2) Em segundo
lugar, cabia aos sacerdotes interceder em favor do
povo, buscando-lhe o perdão de Deus. (3) Finalmente,
sua função era oferecer a Deus os sacrifícios
por ele comandados. Estas três funções, porém, têm
em comum a função mediadora, pois em todas elas o
sacerdote assume a posição intermediária, representativa.
1.2. O POVO DE ISRAEL COMO
"REINO DE SACERDOTE"
A passagem bíblica básica que fundamenta a
afirmação deste sub-tópico é a de Êxodo 19.5.6:
"Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha
voz, e guardardes a minha aliança, então sereis a minha
propriedade peculiar dentre todos os povos:
porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de
sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que
falarás aos filhos de Israel".
É importante considerarmos a situação histórica
em que estas palavras foram pronunciadas, a qual
está claramente indicada no contexto. No vers. anterior
(Êx 19.4) lemos: "Tendes visto o que fiz aos
egípcios." Os egípcios foram a própria personificação
do mal, e Deus os destruiu de forma culminante
na travessia do Mar Vermelho, libertando Israel de
sua escravidão. O vers. 4 continua: "como vos levei
sobre asas de águias." Como mãe compassiva, Deus
carregou Israel para fora do Egito e o levou em segurança
para a salvação. E o vers. conclui: "e vos
cheguei a mim." Como pai, Deus os fez chegar a
ele. Uma libertação não meramente política, mas especialmente
religiosa (cf. Êx 12.12).
Esta é a base da aliança que Deus estava para
celebrar com Israel, uma aliança já anunciada aos
patriarcas. Embora ainda não ocupassem a terra
prometida, esta já era sua em vista da promessa de
Deus. Portanto, em sua graça e misericórdia Deus
libertou Israel da escravidão e o conduziu para a liberdade,
fazendo-o sua "propriedade peculiar dentre
todos os povos, reino de sacerdotes e nação santa".
(1) "Propriedade peculiar dentre todos os
povos"
"Propriedade peculiar" é melhor traduzir por
"tesouro distintivo". Israel tornou-se para Deus seu
"tesouro distintivo" dentre todos os povos. Enfatiza-
se aqui a eleição. Dentre todos os povos, só Israel
tornou-se seu tesouro peculiar. Que honra!
(2) "Porque toda a terra é minha"
À primeira vista, esta parece ser uma frase
perdida no meio deste texto bíblico. Deus está falando
ao seu povo, dizendo-lhes que "sereis minha
propriedade peculiar dentre todos os povos... reino
de sacerdotes e nação santa." O que tem isto a ver
com a afirmação de que "toda a terra é minha"?
Na verdade, esta frase é que fornece a verdadeira
perspectiva dos designativos que Deus dá ao
seu povo. Muitas vezes, quando pensamos no Deus
do Antigo Testamento, temos a impressão de que ele
era um Deus exclusivista, discriminador. Escolheu
um povo para si e deixou que o resto das nações se
danassem. Se temos este pensamento, estamos redondamente
enganados. Consideramos rapidamente
as seguintes evidências:
• Já nas primeiras duas páginas da Bíblia
vemos que Deus criou a terra como "centro" (geocentrismo
teológico e não científico) do universo.
• Deus deu a primeira promessa não a um
israelita, mas ao primeiro par de seres humanos, os
únicos de todo o MUNDO (Gn 3.15).
• Após a destruição causada pelo dilúvio,
Deus veio ao encontro de todo o MUNDO através
de Noé (Gn 9).
• Após a dispersão da raça humana em conseqüência
da torre de Batel, Deus chamou a Abraão
para fora de sua terra e sua parentela, a fim de que
nele viessem a ser "benditas todas as famílias da
terra" (Gn 12.3).
Enfim, desde o começo o amor de Deus está
voltado para toda a terra. É isso que temos novamente
no texto de Êx 19. O que vemos aqui é que os
designativos dados ao povo de Israel têm a ver com a
terra toda, que é propriedade de Deus. Portanto,
estes designativos que caracterizam o povo de Israel
são funcionais, isto é, são dados em função de. Deus
não elegeu Israel como seu "tesouro distintivo" em
detrimento do mundo, mas em função do mundo.
Pois Deus não separou Israel porque de algum modo
merecesse este destaque, nem para privilegiá-lo
egoisticamente com prerrogativas especiais, mas
Deus o elegeu para um propósito especifico. Como
diz Bernard Ramm com muita propriedade:
Isto significa que todas as nações ou tribos do
mundo estão sob o reinado de Iahweh. Israel
não estava elevando seu "deus" a uma significação
universal; pelo contrário, o Deus de todas
as nações está elevando Israel a uma significação
universal. Se Iahweh fosse um Deus
tribal ou meramente o Deus de uma nação, ele
não nos interessaria. Pelo contrário, estes
eventos na Península do Sinai relacionavam-se
ao Deus de todo o mundo, de todas as tribos,
de todas as suas nações, de todos seus reinos
(His Way Out, p. 121).
Este propósito é realçado pelos dois designativos
seguintes, especialmente o primeiro.
(3) "Reino de sacerdotes"
Tendo Deus escolhido, dentre todos os povos,
o povo de Israel como seu "tesouro peculiar" para
um propósito no mundo, este propósito se evidencia
na expressão "reino de sacerdotes". Vimos que as
funções sacerdotais resumem-se na função
mediadora. Portanto, Israel foi eleito e, assim,
tendo direto acesso à revelação graciosa de Deus,
para mediar a graça e a misericórdia de Deus para o
mundo. Em outras palavras, como "reino de
sacerdotes", Israel deveria anunciar ao mundo a
revelação graciosa de Deus e mediar, em favor do
mundo, intercessões e sacrifícios, para que também
este viesse a conhecer ao Deus de Israel como
verdadeiro e único Deus Redentor.
Aqui surge a pergunta sobre a maneira como
Israel haveria de realizar esta mediação. A visão do
Antigo Testamento não é de que agora cada israelita
SAÍSSE na direção das nações pagãs levando-lhes a
mensagem do Deus de Israel, ou que Israel enviasse
missionários a estas nações.
Para compreender isto, é preciso mencionar,
primeiramente, a questão do relacionamento entre
igreja e estado no Antigo Testamento. Israel era ao
mesmo tempo Igreja e Estado. O povo de Deus era
um povo entre os povos, uma teocracia que estava
por ser também geograficamente definida. Visto
que o povo de Deus estava delimitado geográfica e
politicamente, ele deveria ser mais um "reino de sa-
cerdotes" de forma coletiva no mundo, como nação.
Como também diz Johannes Blauw:
O que vai trazer o mundo das nações a Ele
(Deus) não é chamado nem a saída de Israel
para elas, mas exclusivamente a manifestação
visível dos feitos de Deus em e com Israel;
somente assim elas reconhecerão a Javé como
o SEU Deus, isto é, confessarão que o Deus
de Israel é o SEU Deus, o Deus de toda a terra,
o ÚNICO Deus.
... a missão de Israel consiste no fato de que
através desta nação Deus tornará conhecido o
seu poder, visível e tangível à vista de todas as
nações e com vistas a todas as nações.
. . . Ele as fará ver a realidade, criando espaço
no meio delas para uma nação (Gn 12), que é
Sua propriedade especial, a fim de criar espaço
para a Sua aceitação entre as nações. (A Natureza
Missionária da Igreja, pp. 37-38).
A vida do povo como nação, geograficamente
colocada no meio das nações, deveria espelhar o
amor de Deus pelo mundo. Na medida em que os
povos vislumbrassem os feitos de Deus em Israel e
na medida em que estes povos vissem a vida santa
levada por este povo, praticando a justiça, em conseqüência
do amor de Deus manifestado a ele, estes
povos viriam a Israel para também ali beber das
fontes cristalinas provindas do único Deus Redentor.
Por isso, não é sem razão que Moisés, em Êx
15, faz menção de como as nações tomaram conhecimento
dos feitos de Deus em favor de Israel,
quando o libertou do Egito. Precisamos lembrar
também que Raabe buscou socorro junto ao Deus
de Israel porque tinha ouvido a respeito de seus
grandes feitos (Js 2.9-13; cf. tb 2 Rs 5).
Embora no Novo Testamento o sacerdócio
atribuído a todos os cristãos recebesse um enfoque
novo, o enfoque do Antigo Testamento permanece
válido.
1.3. A INSTITUIÇÃO SACERDOTAL
É muito significativo observar que a instituição
do ofício sacerdotal em Israel (Êx 28) é posterior
a Êx 19, onde o povo todo é designado de "reino de
sacerdotes". É significativo, porque isto mostra que
este ofício também é funcional. Assim como Israel é
um "reino de sacerdotes" em função do mundo, assim
a família de Arão e os levitas são sacerdotes da
preparação deste "reino de sacerdotes".
Portanto, o ofício sacerdotal no Antigo Testamento
visava, pelas suas funções de ensinar,
aconselhar, interceder e fazer sacrifícios, edificar o
povo de Deus como "reino de sacerdotes" e zelar
para que nunca o deixassem de ser. Lamentavelmente,
porém, houve períodos em que isso veio a
acontecer (cf. p. ex., Oséias).
Por outro lado, sua presença entre o povo era
um constante anúncio de que Deus estava para enviar
um sacerdote sem igual (Cristo), que prepararia
definitivamente um povo sacerdote (cf. Epístola de
Hebreus).
II - O SACERDÓCIO NO NOVO
TESTAMENTO
No Novo Testamento, mostra-se, em primeiro
lugar, que o único verdadeiro Sumo - Sacerdote é
Cristo e que, em segundo lugar, ele com a sua obra
conferiu a honra e o direito do sacerdócio a todos os
cristãos.
2.1. JESUS, SUMO - SACERDOTE
O ensinamento claro do Novo Testamento a
respeito de Cristo como único e verdadeiro Sumo
Sacerdote é o seguinte: O Sumo Sacerdote da igreja
é o Unigênito Filho de Deus, nosso Senhor Jesus
Cristo, que foi ordenado diretamente pelo Pai eterno
(Hb 5.4-9), e ungido com a plenitude do Espírito
Santo (Jo 3.34; Cl 2.9,3), a fim de poder:
• revelar a toda a raça humana o mistério da
vontade de Deus a respeito da redenção e salvação
dos homens e ensinar-lhes o evangelho trazido por
ele desde o coração do Pai (Jo 6.38-40; Jo 1.18);
• ao entrar no Santo dos Santos (Hb
9.11,12, 24). interceder e orar por toda a igreja (Hb
7.24,25), sob promessa de que ele certamente será
atendido (Jo 11.42);
• oferecer, uma vez por todas, o único sacrifício,
a saber, a si mesmo, pelo qual aplacasse a ira de
Deus contra os pecados dos homens e obter a remissão
dos pecados, justiça e vida eterna para toda a
igreja (Hb 9.12; 7.27; 10.11,12, 14);
• conceder estes seus benefícios aos que nele
crêem (Jo 17.19,20), despertar o verdadeiro conhecimento
e amor de Deus no coração daqueles que
aceitam o evangelho (Mt 11.27) e atender as orações
daqueles que clamam a ele (Jo 14.13).
Ao exercer o ofício sumo - sacerdotal, Cristo
ultrapassa totalmente e cumpre definitivamente o
sacerdócio de Arão e dos demais sacerdotes do
Antigo Testamento. Principalmente porque, como
Filho Unigênito de Deus, não recebeu o sacerdócio
através de agentes humanos, mas do próprio Deus
que disse: "Tu és o meu filho amado, em ti me
comprazo" (Mc 1.11). Outrossim, embora não
tendo pecado, "a si mesmo se ofereceu sem mácula
a Deus", "uma vez por todas", tornando-se o
"Mediador da nova aliança" (Hb 9.14,15; 7.27).
Além disso, é preciso ressaltar que Cristo
exerceu o ofício sumo - Sacerdotal também na perspectiva
do mundo. Jesus mesmo enfatiza este ponto,
ao dizer: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira
que deu o seu Filho unigênito, para que todo o
que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo
3.16).
2.2. TODOS OS CRISTÃOS,
SACERDOTES
Conferindo o Novo Testamento adiante, percebemos
que Jesus Cristo foi constituído Sumo Sacerdote,
e como tal revelou o evangelho, intercedeu
em favor da raça humana caída em pecado e na
morte e apresentou-se como oferta e sacrifício a
Deus, justamente para tornar cada cristão um sacerdote.
Como diz o apóstolo João: Jesus Cristo nos
amou "e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados,
e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu
Deus e Pai" (Ap. 1.5,6).
Notemos também 1 Pedro: "Fostes resgatados...
pelo precioso sangue, como de cordeiro sem
defeito e sem mácula, o sangue de Cristo... Chegando-
vos para ele, a pedra que vive... Também vós
mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa
espiritualmente para serdes SACERDÓCIO santo, a
fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis
a Deus por intermédio de Jesus Cristo" (1 Pe
1.18,19; 2.4,5). E mais adiante: "Vós, porém sois
raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de
propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes
as virtudes daquele que vos chamou das trevas
para sua maravilhosa luz" (1 Pe 2.9).
Percebemos, portanto, que, no Novo Testamento,
o sacerdócio não é prerrogativa de uma ordem
particular de homens, mas pertence igualmente
a todos os cristãos, sendo propriedade comum de todos.
Pois todos os cristãos, porque nasceram de novo
da água e do Espírito (Jo 3.3-5) e crêem em
Cristo, são sacerdotes divinamente investidos de uma
série de privilégios e responsabilidades.
Antes de enumerar os privilégios e responsabilidades
sacerdotais dos cristãos, é necessário destacar
um elemento fundamental. De forma semelhante
à ordenação de Israel como "reino de sacerdotes" e
de Cristo em seu ofício Sumo Sacerdotal, também o
sacerdócio universal é conferido aos cristãos na
perspectiva do mundo. Em 1 Pedro isto se evidencia
pela conclusão de 2.9: "a fim de proclamardes as
virtudes daquele que vos chamou das trevas para a
sua maravilhosa luz". Evidentemente, Pedro está se
referindo à proclamação no mundo (cf. 3.15; veja tb.
Mt 28.18-20).
Voltemos, então, aos privilégios e responsabilidades
dos cristãos como sacerdotes reais, que podem
ser enumerados da seguinte maneira:
(1) Já pela perspectiva em que o sacerdócio foi
conferido aos cristãos, bem como pela direção do
amor de Deus percebida através de toda a Escritura,
a saber, o mundo fica evidente que o primeiro e principal
dever e responsabilidade de cada cristão, como
divinamente investido do sacerdócio real, é o que
está expresso em 1 Pe 2,9b: "a fim de proclamardes
as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a
sua maravilhosa luz." Todos os cristãos, pelo simples
fato de ouvirem o evangelho e o receberem na
fé, estão sendo ensinados por Deus e, por isso, têm o
direito de ensinar, e confessar, proclamar e propagar
a graça, a bondade, a misericórdia, a verdade e todos
os benefícios com que ele os tem abençoado em e
através de Jesus Cristo a outros (cf. 2 Co 4.13; Cl
3.16; 1 Co 11.26; 14.31). Esta responsabilidade foi
dada aos cristãos, a fim de que, através deles o mundo
possa discernir os poderosos feitos de Deus e
receber os benefícios dados a nós em Cristo Jesus e,
assim, liberto do pecado, da morte e da condenação
eterna, se apegue a Deus e o sirva.
(2) Assegurados do perdão se todos os seus
pecados através do Sumo Sacerdote, Jesus Cristo,
cuja intercessão continua a assegurar-lhes este perdão
(1 Jo 2.1,2) e a quem eles têm acesso direto, todos
os cristãos possuem as chaves, isto é, o poder de
reter e perdoar pecados, conforme fica amplamente
demonstrado em Mt 18.15-18.
(3) Cabe também a todos os cristãos o privilégio
de receber e administrar os sacramentos do
Batismo e da Santa Ceia. Com respeito ao Batismo,
Jesus diz a todos os cristãos: "Fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). E quanto à
Santa Ceia. Jesus também diz a todos os cristãos:
"Fazei isto em memória de mim" (Lc 22.19).
(4) Outra função dos cristãos, como investidos
do sacerdócio real, é o de se aproximarem de
Deus em oração e intercessão em favor deles mesmos
e de outros. Também este direito é de propriedade
comum de todos os cristãos (Ef 3.12). Por
isso, o próprio Cristo ensinou a todos um modelo de
oração, o Pai Nosso, e acrescentou-lhe uma exigência,
bem com a promessa: "Pedi e dar-se-vos-á"
(Mt 7.7,8; cf. tb. Lc 11.13; 18.1; 1 Tm 2.1,2; Hb
4.16).
(5) Os cristãos receberam ainda a incumbência
de julgar todas as doutrinas, isto é, aprovar a
doutrina correta e reconhecer e rejeitar doutrinas
falsas bem como mestres falsos. João, por exemplo,
declara: "Amados, não deis crédito a qualquer espírito:
antes, provai os espíritos se procedem de
Deus" (1 Jo 4.1; cf. tb. 1 Jo 1.20,21; 1 Ts 5.20,21;
Jo 10.27,5; Mt 7.15,16; 16.6; 23.2,3; Jo 14.26).
(6) Finalmente, cabe aos cristãos, como sacerdotes
reais, "oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis
a Deus por intermédio de Jesus Cristo" (1 Pe
2.5; cf. Rm 12.1; Hb 13.15,16). Assim, todos os
cristãos não apenas têm o mesmo direito, mas são
enfaticamente ordenados a oferecer sacrifícios a
Deus. Não se trata, obviamente, de sacrifícios de
animais, como no Antigo Testamento, nem apenas
ética respeitável e moralidade natural própria também
dos pagãos, mas as inclinações puras de um coração
transformado pelo Espírito Santo, a saber,
verdadeiro temor e amor a Deus, fidelidade, gratidão,
confissão, paciência, amor ao próximo, e outras
obras boas, para as quais o conhecimento e o amor
de Cristo, nosso Sumo Sacerdote, nos chama e
motiva.
Há autores que subdividem ainda mais estes
privilégios e responsabilidades: (7) Direito e privilégio
de chamar pastores (e professores), bem como
elaborar os estatutos da congregação e preencher os
cargos neles previstos; (8) A responsabilidade de
exercer a disciplina, pois o sacerdote é responsável
pelo bem espiritual de seu irmão; (9) Confortar os
solitários, os aflitos, os doentes e os que estão sendo
tentados: (10) Sacerdotes também são chamados a
incentivar-se a prática de boas obras, encorajando-se
mutuamente; (11) "Fazer o bem a todos, principalmente
aos da família da fé"; (12) Engajar-se
pessoalmente na obra missionária; (13) Exercer os
direitos e privilégios sacerdotais em seu lar, em sua
vocação e de acordo como suas capacidades como
vizinho e cidadão; (14) Exercer a sua liberdade
cristã.
Todos estes últimos, porém, podem ser considerados
desdobramentos dos primeiros cinco. Em
todo caso, servem para deixar-nos admirados por
todas as honras que Cristo nos conferiu, isto é, a cada
um dos cristãos, os sacerdotes reais.
Para encerrar este ponto, precisamos mencionar
mais uma coisa. Já vimos qual perspectiva em
que os cristãos são investidos do sacerdócio, a saber,
na perspectiva do mundo. Porém, é necessário perguntar-
se agora: De que maneira a Bíblia visualiza a
realização deste sacerdócio por parte dos cristãos em
relação ao mundo? No Antigo Testamento, o povo
de Deus realizaria suas funções sacerdotais de forma
mais coletiva, em meio às nações e à vista das nações.
Isto não fica anulado para o Novo Testamento.
Os cristãos, que formam o Novo Israel, também são
chamados, a partir do ensinamento do Antigo
Testamento, a realizar seu sacerdócio de forma
coletiva em cada uma das congregações cristãs. De
acordo com isto, cada congregação é chamada a espelhar
a ação de Deus em seu meio, através de uma
vida coletiva que demonstre o amor, a bondade, a fidelidade
e a justiça de Deus.
Por outro lado, o Novo Testamento acrescenta
um elemento novo. Enquanto no Antigo Testamento
se visualizava as nações vindo a Israel, no Novo
Testamento, após a ressurreição de Cristo, os cristãos
são chamados a sair em direção às nações, tanto
em forma de grupo organizado (congregações) como
individualmente. Conhecemos bem as palavras de
Jesus, proferidas antes de sua ascensão: "recebereis
poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis
minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em
toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra"
(Atos 1.8; cf. 28.18-20). E o livro de Atos dos
Apóstolos é uma demonstração clara da realização
desta incumbência, tanto coletiva como individual
dos cristãos.
Após ver a impressionante lista de prerrogativas
sacerdotais atribuídas a cada cristão, deve nos
surgir a pergunta: Mas afinal, com isso, o ministério
pastoral não se tornou supérfluo. Esta é a questão
que precisamos abordar agora.
2.3. A DIFERENÇA ENTRE O
SACERDÓCIO DOS CRISTÃOS
E OFÍCIO PASTORAL
Embora todos os cristãos sejam sacerdotes,
Deus também instituiu o ofício pastoral, de um lado,
pressupõe o sacerdócio universal dos cristãos no
sentido de que os que exercem tal ofício procedem
das fileiras do sacerdócio. Por outro lado, porém, o
ofício pastoral se distingue do sacerdócio. Isto se
evidencia no fato de que do pastor se exigia uma capacidade
especial para o ensino ("seja apto para ensinar",
1 Tm 3.2), bem como, para exercer este ofício
ele precisa ter um chamado especial (1 Tm 5.22;
Tt 1.5).
Em sua essência, então, o ministério pastoral
foi instituído por Deus para prover que a palavra divina
e os santos sacramentos sejam administrados
publicamente, em nome e para congregação cristã.
No livro de Efésios, o apóstolo Paulo deixa claro que
este ministério tem caráter funcional, isto é, foi instituído
em função da congregação dos sacerdotes,
com vistas ao preparo destes sacerdotes para o exercício
de suas funções: "E ele mesmo concedeu uns
para apóstolos, outros para profetas, outros para
evangelistas, e outros para pastores e mestres, com
vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho
do seu serviço, para a edificação do corpo de
Cristo,... "(Ef 4.11-12).
O ofício pastoral, portanto, foi instituído por
Deus, a fim de equipar o batalhão de cristãos de tal
maneira que estes possam cumprir com suas funções
sacerdotais para sua própria edificação e sua penetração
no mundo.
III. O SACERDÓCIO HOJE
(Grupos e Debate)
3.1. O EXERCÍCIO DO SACERDÓCIO
O exercício do sacerdócio por parte dos cristãos
exige mais do que serviços voluntários na congregação,
ou igreja. Exige, isto sim, a aceitação de
toda a vida e trabalho diário como âmbitos para a
expressão do sacerdócio. Isto inclui treinamento
para todos os aspectos e setores em que nossa vida se
envolve, transformando nossa confissão cristã em
uma filosofia de vida de tal forma que, seja onde estivermos
lá fora no mundo, nossos talentos sejam
usados a serviço deste sacerdócio. Portanto, qualquer
que seja nosso serviço, sapateiro, professor,
dona de casa, agricultor, pai, mãe, faxineira, etc.,
esta será nossa vocação cristã, pois nele estaremos
realizando um serviço de modo cristão e, por isso,
agradável a Deus e para o bem do próximo.
Quando Deus chama uma pessoa através do
Evangelho, ele chama a pessoa toda e reivindica toda
a sua vida. Oscar Feucht (Everyone a Minister, pp.
75-77) sugere que a vida de uma pessoa abrange seis
setores: os setores pessoal, familiar, congregacional,
comunitário, ocupacional e cívico-político.
Convém perguntar se as congregações luteranas
estão empenhadas em equipar e preparar cada
cristão para que ele desempenhe seu sacerdócio em
cada um destes setores da sua vida.
PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO
EM GRUPO
1. Que nível de conhecimento você tinha a respeito
da doutrina do Sacramento Universal dos
Crentes (Tirar a média do grupo: 0 a 10)
2. Sua congregação possui um programa de educação
e treinamento dos "sacerdotes" para todos
os setores que abrangem sua vida? O que
tem? O que falta?
3. Em que programa de sua congregação você está
sendo preparado realmente para o ministério
sacerdotal?
4. Na celebração de nossos cultos, os cristãos são
apenas espectadores passivos ou toma-se em
consideração o fato que todos os cristãos presentes
são sacerdotes? Que deveria mudar?
5. Como podemos ensinar de forma eficaz esta
doutrina a todos? A estrutura tradicional dos
departamentos possibilita tal ensino? Por que
sim? Por que não? O que sugere?
6. Qual é sua auto-imagem a respeito de sua missão
como membro da congregação?
7. Estão os nossos seminários (CEL-SL e ICSP)
educando os obreiros no sentido de serem verdadeiros
equipadores dos sacerdotes, ou apenas
artistas do ritual? O que deveria mudar?
8. Para quais dos seis setores, que sua vida abrange,
sua congregação o prepara melhor?
9. As igrejas (congregações) têm sido consideradas
como: Arcas da salvação; Campos fortificados;
Minorias de Deus; Sociedade eclesiásticas;
Templos em que Deus vive; Clubes de
famílias, etc... com qual destes, ou outros, sua
igreja se identifica? Por quê?
10. Em que ordem você classificaria os seguintes
designativos de seu pastor?
( ) Administrador
( ) Pastor
( ) Pregador
( ) Organizador
( ) Professor
11. Por que estão os leigos (homens, mulheres e jovens)
primordialmente envolvidos com funções
de organização e administração, que tratam de
coisas externas, quando suas funções sacerdotais
são principalmente espirituais?
12. Tomando em conta esta doutrina, haverá algum
membro de sua congregação, por mais sem talento
que esteja, que não possa desenvolver
funções sacerdotais, individualmente e na congregação?
13. Em que situação um leigo poderia administrar o
Batismo? Em que situação, a Santa Ceia?
BIBLIOGRAFIA
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