85. CONSOLO E ESPERANÇA
1 Ao mestre do coro. Dos filhos de Coré. a Salmo.
2 favoreceste, Iahweh, a tua terra, fizeste voltar os cativos de faço;
3 perdoaste a iniquidade do teu povo, encobriste todo o seu pecado; Selá
4 reprimiste o teu furor todo, refreaste o ardor da tua ira.
5 Faze-nos voltar b, ó Deus salvador nosso, renuncia ao teu rancor contra nós!
6 Ficarás irado conosco para sempre, de geração em geração prolongando tua ira?
7 Não voltarás para nos vivificar, e para o teu povo se alegrar contigo?
8 Mostra-nos o teu amor, ó Iahweh, e concede-nos a tua salvação.
9 Vou ouvir o que Iahweh Deus diz, porque ele fala de paz ao seu povo e seus fiéis, para que não voltem à insensatez.
10 Sua salvação está próxima dos que o temem, e a glória habitará em nossa terra.
11 Amor e Verdade se encontram, Justiça e Paz se abraçam;
12 da terra germinará a Verdade, e a Justiça se inclinará do céu.
13 O próprio Iahweh dará a felicidade, e nossa terra dará seu fruto.
14 A Justiça caminhará à sua frente, e a salvação b no caminho em que ele anda.
a. Cf. Intr., p. 65.
b. Ver BH.
O salmo tem caráter litúrgico. Os w. 2-8 parecem ter sido recitados diante da comunidade — talvez em coros alternados — ao passo que nos w. 9ss ouve-se uma só voz. A cena constitui certamente uma liturgia comunitária de petição inserida na celebração cultual. Numa proclamação hínica da fé, o olhar da comunidade se volta de início para o grande evento salvífico de Deus, ocorrido no passado, pelo qual ele mudou a sorte de Jacó e perdoou a culpa de seu povo (w. 2-4). Em seguida vem o comovente pedido que sobe da aflição do presente (w. 5-8). Do seio da comunidade em oração destaca-se alguém (talvez um profeta) que escuta o que Deus quer dizer em resposta à prece do povo. De repente ele ouve a misteriosa voz de Deus, que anuncia a salvação para o povo. E, tomado de entusiasmo profético, este vidente anuncia à multidão, toda ouvidos, a promessa da salvação divina em palavras magníficas (w. 9-14). A dramática tensão, que assim o cantor imprime ao salmo, nasce da dramaticidade viva da experiência cultual e corresponde à tensão característica da realidade da fé, que encontra expressão no salmo.
O cântico em geral é interpretado à luz da história do tempo, a partir da situação do povo não muito depois da volta do exílio babilônico: a grande mudança na sorte de Israel, anunciada e interpretada com entusiasmo pelo Dêutero-Isaías como o ato da graça de Deus, é coisa do passado. Mas eis que a primeira alegria da redenção da escravidão está amortecida pelo amargor das experiências. Muita coisa ocorreu de forma diferente do que as expectativas ousadas tinham pintado. O peso da dominação estrangeira apenas passara da mão dos babilônios para a dos persas, sem se afastar do povo. Privações, más colheitas e contendas (cf. Ag l, l Os; 2,3ss; Zc l,12ss) tiveram de despertar o doloroso reconhecimento de que o ansiado tempo da salvação ainda não tinha vindo, e que a ira de Deus ainda pesava sobre o povo. Sob o peso da aflição presente buscavam-se encorajamento e consolo nas façanhas do auxílio divino em tempos passados, que se tomavam como penhor de cumprimento no futuro. Essa explicação do salmo, que leva em conta a história do tempo, todavia, só se pode apoiar sobre a referência, que não é absolutamente certa, do v. 2b à libertação do exílio, que parece ser reinterpretação posterior. E mais possível a compreensão do salmo a partir da tradição da celebração cultual no outono (v. 15), onde sempre se voltava a vivenciar na comunidade a história da salvação como atualização dos feitos pêlos quais Deus conduziu o seu povo (redenção do Egito, entrega da terra prometida; cf. Intr., pp. 17s,26). Se o salmo for entendido nesses parâmetros, deve ter tido origem no período pré-exílico.
2-4. Na primeira parte do salmo (w. 2-4) a oração da comunidade volta-se para o passado, que ela coloca diante do seu olhar e do de Deus. Mas o seu olhar não se prende aos acontecimentos históricos em sua exterioridade, como também não está em primeiro plano o acontecer humano, mas sim a fé que se anima considerando a natureza de Deus e o seu governo do povo, tendo deposto sua ira e mostrado graça com o perdão dos pecados, fé que uma vez mais atualiza as façanhas de Deus no âmbito do culto. Mais forte do que o sentimento de gratidão faz-se valer aqui a busca de um apoio firme, que pode ser comunicado pela lembrança de Deus, que “mudou a sorte” do seu povo para dias melhores e fez com que a graça tivesse primazia sobre o direito (cf Intr., p. 29). Esses versículos constituem, pois, a base de fé para a súplica que vem a seguir. A comunidade, que fixa os olhares em Deus, sabe a quem ela ora e o que pode esperar dele na sua presente angústia. Não busca unilateralmente a justificação de sua súplica na sua situação de miséria, mas ora baseando-se no seu encontro com Deus e na sua graça; é isso que confere à sua oração o apoio da fé firmemente ancorada na tradição salvífica.
5-8. A transição do olhar de fé voltado para a graça de Deus no passado rumo ao pedido de que se afaste a ira (w. 5-8) evidencia-se com certeza bastante abrupta, mas não carece de ligação interna. Com efeito, o desapontamento com relação à realidade, que não correspondeu às arrojadas esperanças de salvação, constitui a razão externa para que a comunidade continue a sentir-se sob a ira de Deus. Com isso, porém, não se enfraquece absolutamente e muito menos se suprime a proclamação da fé pelo Deus gracioso (w. 2-4). Com efeito deparamos aqui a tensão que sempre acompanha a fé quando é genuína. Voltando-se inteiramente o olhar para a realidade de Deus, como nos vv. 2-4, o homem vê-se confrontado com a rica plenitude da graça na fé que já possui sua realidade profunda; voltando-se o olhar todavia para a realidade terrena que o cerca, sente a distância que medeia entre a realidade de Deus e a do homem, recebendo a fé neste caso a conotação de fé que ainda espera a graça em sua plena floração.
Não se deve, pois, explicar a tensão entre as duas partes do salmo apenas “historicamente”, como distinção entre um antes e um agora; pelo contrário, ela integra a própria essência da fé, manifestando-se de forma particularmente clara no âmbito do culto, variando sua tonalidade à medida que em primeiro plano esteja a percepção da realidade divina ou a impressão da realidade humana. Também o dito do Novo Testamento: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade!” acha-se tomado pela mesma tensão (Mc 9,24). A comunidade, abatida sob a carga paralisante da realidade terrena, que se mostra insuficiente e desilude, sente a distância de Deus e, em decorrência, a sua ira, sendo então uma comunidade que espera que Deus afaste a sua ira, conceda-lhe sua graça e salvação, e “faça voltar” o povo que, no meio de sua miséria, se vê perdido longe de Deus (cf. a retomada do verbo shub do v. 2), para que do novo logre alegrar-se em Deus. Na aflição põe-se à prova a fé, que sempre deve retomar à luta pelo que possui. Esse pedido da comunidade gira também em tomo da correia relação com Deus, que significa bem mais do que bens terrenos.
9. Do meio dos que estão a orar levanta-se agora a voz de um indivíduo. Ansiosamente ele e a comunidade ouvem o que Deus quer responder. De repente ele ouve algo, o som de uma voz. Será o Senhor? Sim, é o Senhor que fala. De seus lábios escuta claramente uma só palavra que tudo sintetiza: “Salvação!” Com mestria logra o cantor fazer ecoar em suas palavras a comovente tensão do momento. Agora o povo, a comunidade dos piedosos, tem a desejada resposta de Deus. No momento em que sua fé passa por crise, correndo o risco de “voltar à insensatez”, duvidando da salvação de Deus, o próprio Deus intervém a fim de novamente suscitar e fortalecer a sua fé com a sua palavra. Com a misteriosa experiência do seu profeta, a comunidade prepara-se internamente para encontrar-se com Deus.
10. Mas o profeta-vidente tem algo mais a anunciar: a salvação está muito próxima, e a “glória” de Deus “habitará na terra” (cf. Is 6,3). O fato de Deus aparecer e estar presente na sua “glória” constitui a realidade decisiva do novo tempo da salvação, que começa com a teofania na celebração do culto como início de um novo ano da salvação.
11-12. Quão prevalente seja esse ponto de vista manifesta-o também a descrição entusiasmada da salvação quanto ao seu aspecto espiritual (w. l Is). Lá onde alhures o pensamento cultual no Oriente antigo vê as forças da natureza como determinantes do evento salvífico, o salmista contempla, em magnífica personificação mitológica, os tempos escatológicos como configurados pela força espiritual do amor e da fidelidade (note-se a referência à renovação da Aliança na tradição do Sinai em Ex 34,6; cf. Intr., pp. 24,26), da justiça e da paz de Deus como anunciadores e servos de Deus no seu advento. Céu e terra se encontram no acontecer sagrado do culto, e assim como o sol desde o céu faz brotar vida na terra, também a “Justiça” de Deus (o termo significa a total abrangência da vontade salvífica divina) suscita a fidelidade e a fé dos homens. Deus se inclina do céu para a terra, e a terra se eleva rumo ao céu, na direção de Deus: visão sublime, a um só tempo grandiosa e profunda!
13. Somente sobre a graça de Deus se edifica a esperança da salvação, “O próprio Iahweh dará a felicidade”, sendo ele quem lança a ponte por sobre o abismo que o homem sente como ira de Deus. Também a bênção dos bens terrenos não pode faltar na esfera de Deus, que abarca como unidade universal a ordem natural e moral. Em vista da importância que alhures a idéia da fertilidade paradisíaca possui como traço permanente da escatologia (cf. Am 9,13; Os 2,23s; Is 30,23ss; Jr 31,12), nesta passagem é notável a força com que, mesmo tratando-se da festa outonal da colheita, o aspecto material se retrai em comparação com o espiritual.
14. A conclusão do salmo, que volta a colocar a teofania no centro do evento, leva à mesma idéia. Ao irromper a salvação Deus surge como rei devidamente escoltado; como sua guarda caminha diante dele a Justiça, e a Salvação segue pelo caminho que ele palmilha (cf. a esse respeito Is 40,10; 58,8; 62,11). No mistério da ação cultual a fé vislumbra vitoriosamente o futuro de Deus. Essa fé, que está à espera do surgimento de Deus, provada e lutando em meio a dificuldades e crises para emergir da experiência para uma esperança que se apoia inteiramente em Deus, impediu que os valores da fé do Antigo Testamento se esfacelassem nos escolhos surgidos no decorrer da história por causa do real estado de coisas na terra.