SEMINÁRIO CONCÓRDIA
TEOLOGIA PASTORAL
O CHAMADO PASTORAL
Iromar Schreiber, Silvair Litzkow,
Walduino Paulo Littig Junior, Wylmar Klippel
São Leopoldo, 2005
SEMINÁRIO CONCÓRDIA
TEOLOGIA PASTORAL
O CHAMADO PASTORAL
Iromar Schreiber, Silvair Litzkof,
Walduino Paulo Littig Junior, Wylmar Klippel
Trabalho apresentado ao Professor Paulo Proske Weirich da Disciplina de Teologia Pastoral do Seminário Concórdia.
São Leopoldo, 2005
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..............................................................................................04
1. O QUE É O CHAMADO?..........................................................................05
2. O CHAMADO VEM DE DEUS..................................................................07
3. DEUS CHAMA ATRAVÉS DA IGREJA...................................................10
4. A NECESSIDADE DO CHAMADO..........................................................12
5. O PROCESSO DO CHAMADO................................................................13
5.1 No Novo Testamento.......................................................................13
5.2 Aposentadoria..................................................................................14
5.3 Troca de Comunidade.....................................................................14
5.4 Destituído do Pastorado..................................................................14
5.5 Destituído Injustamente...................................................................15
6. OFÍCIO......................................................................................................17
6.1 Ofício do Sacerdócio Universal......................................................18
6.2 Ofício do Ministério Pastoral...........................................................21
7. O CHAMADO PASTORAL NA IELB........................................................23
CONCLUSÃO...............................................................................................27
BIBLIOGRAFIA.............................................................................................28
INTRODUÇÃO
O Chamado Pastoral sempre foi um tema discutido em toda vida, e, em todo o tempo da Igreja, desde os primórdios. Hodierno, não é diferente. A Igreja está vivendo este momento em que se discute e questiona este tão relevante tema: O Chamado. No entanto, este ensaio tem como objetivo avaliar o “Chamado Pastoral” a luz da história da Igreja e a partir de dogmáticos, Lutero e outros. Feito isso, se tem subsídios e fundamentos para uma avaliação e aplicação para o contexto da Igreja atual.
1. O QUE É O CHAMADO?
O termo “chamado” é muito usado nas Confissões e nas Escrituras. 1º) É usado simplesmente para nomear algo, para denominar ou identificar algo; 2º) É usado para designar o chamado que Deus dirige a alguém para torná-lo cristão, o chamado à fé ou o chamado eterno e a eleição para a vida eterna, a eterna salvação; 3º) As Confissões falam do chamado (vocatio, Beruf) como uma posição, mandato divino.
A maioria dos casos em que se usa o termo “chamado”, se refere em vários casos à ação de Deus que é pessoal e concreta: chamados são pessoais. Deus age sobre indivíduos para salvá-los ou para colocá-los em algum ofício, no qual eles possam servi-lo. Ele chama a pessoa de uma posição para uma posição, um estado.
Lutero vê o chamado de Deus para o ministério como vocação externa, como vocação mediata. E “vocação” é “entendida como a inclinação íntima ou aconselhamento pelos quais Deus encaminha alguém a procurar o Ministério Pastoral, ou outra ocupação de vida”.[1]
O dogmático Quenstedt diz que o chamado é um ato pelo qual Deus chama homens para a fé e o arrependimento pela Palavra, quando escrita ou lida, e lhes oferece a graça da conversão.[2]
Gerhard descreve o chamado ao ministério da Palavra como sendo a escolha de Deus, de “pessoas especiais”, do resto da multidão de homens. Logo, o chamado pode ser denominado uma missão (Rm 10.15), por vezes, uma eleição (1Cr 23.13; Lc 6.13; Jo 6.70; At 1.2,24; 9.15; Rm 16.13). A eleição precede o chamado e é mais importante. Em determinadas ocasiões o chamado está ligado a um escolher, chamar, enviar (Is 49.1).[3]
O artigo XIV da Confissão de Augsburgo apresenta a doutrina do chamado como sendo “a ação de Deus pela igreja inteira”.
O pastor precisa ter em mente que a igreja não é dele. E que o chamado não é um instrumento de dominação! Mas é uma dádiva de Deus para que ele cumpra com fidelidade o ministério que recebeu. É um ministério de servir, não de servir-se!
2. O CHAMADO VEM DE DEUS
Deus é o autor do chamado. Ele é o único sujeito em ação. Nós somos apenas instrumentos (representantes) pelos quais Deus age: “Somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio” 2Co 5.20.
Mentzer afirma que Deus é o único que tem direito e poder para chamar. E "não é verdadeiro o chamado que não provém de Deus e em resposta a Deus”. Assim Deus chama ministros não só para pregar a Palavra, mas também para proteger a igreja, salvar almas, porque ele ama a todos.[4]
Lutero acreditava que é possível que Deus chamasse de maneira direta um pregador, e que isso poderia acontecer por meio de sinais e milagres.
No Antigo Testamento Deus chamava de maneira direta. O que não podemos fazer é generalizar definindo uma só forma de chamado. Deus chama obreiros de diversas maneiras, e para isso ele usa meios.
Podemos ver isso a partir de exemplos bíblicos do Antigo e Novo Testamento: no AT temos o exemplo de Moisés que foi diretamente chamado por Deus do meio da sarça ardente (Ex 3.1-10; Gn 12.1; Is 51.2; Hb 11.8); o chamado de Abraão por intermédio de Melquisedeque (Gn 14.18-24). No NT os apóstolos foram designados diretamente por Cristo (Gl 1.1) supervisionados pela igreja (2 Co 11.28). Os bispos ou presbíteros eram eleitos por suas congregações (At. 1.23; 6.2-6; 14.23).
Lutero, as Confissões, Chemnitz e todos os dogmáticos ensinaram de uma só voz contra os Anabatistas, Socianos, Schwenckfeldianos e outros entusiastas de que após o tempo dos apóstolos, Deus não chama mais pastores e ministros diretamente, mas por intermédio da igreja. Desta forma, Deus chama pela igreja, a noiva de Cristo, à qual Ele dá o ofício das chaves. Desta forma todo o ministério é da igreja (Ef 4.12; l Co 3.21).
Hoje, em geral, Deus chama os responsáveis pelo ministério por ele instituído de maneira mediada, por meio de pessoas. Deus age de maneira oculta, enquanto chama através de pessoas. É através da vocação externa que o ministro recebe a autoridade para o exercício do anúncio público na Igreja.[5]
Lutero sempre teve a convicção de que a Igreja recebeu a incumbência de chamar pessoas para o ministério. Essa Igreja é o “santo povo cristão”, e o “povo de Deus”, “a comunidade santa”, como o podemos ver ao longo de incontáveis escritos seus. Ele está autorizado a convocar e chamar ministros. Onde esta igreja chama, devemos ter a certeza de que ela age em nome de Deus.
Como por exemplo, Paulo mandou a Tito e a Timóteo que ordenassem presbíteros e sobre como eles deveriam fazê-lo, por meios (Tt 1.5; l Tm 2.2). Daí Chemnitz argumenta de que este chamado mediato em nossos dias é o mesmo chamado divino, que os profetas do Antigo Testamento receberam. Timóteo não foi menos chamado do que o próprio apóstolo Paulo. E assim o é com cada ministro hoje (At 20.28; 2 Co 5.18-20; l Co 12.28). Deus dá a mesma graça, ajuda, poder e eficácia divina ao ministério da Palavra hoje.
3. DEUS CHAMA ATRAVÉS DA IGREJA
Lutero, as Confissões, Chemnitz e todos os dogmáticos ensinaram de uma só voz contra os Anabatistas, Socianos, Schwenckfeldianos e outros entusiastas de que após o tempo dos apóstolos, Deus não chama mais pastores e ministros diretamente, mas por intermédio da igreja.
Os pastores são chamados de ministros da igreja. E o chamado de Deus é mandamento seu[6], não simplesmente uma promessa insignificante ou decisão que as pessoas fazem para si mesmas. Pois pelos apóstolos, Deus deu e prescreveu para a igreja certa forma de como ele quer enviar e chamar ministros, a saber, por um chamado mediato.
Em virtude do seu sacerdócio espiritual, todos os crentes possuem até “à consumação dos séculos” o direito inerente de pregar o evangelho e administrar os sacramentos. Uma vez, que todos os crentes cristãos são depositários dos meios da graça, é privilégio seu chamar pastores ou ministros que em seu nome apliquem publicamente os meios da graça.
No tempo dos apóstolos, eles não elegiam presbíteros arbitrariamente, apenas por sua autoridade apostólica, mas com o seu consentimento expresso e mediante cooperação ativa das igrejas locais.
Johann Gerhard ressalta o poder da igreja no chamado. Ele diz que em geral, dizemos que os ministros não devem ser apontados unicamente pelos ministros ou somente pelos magistrados civis, muito menos deve a sua indicação ser submetida à vontade do povo indiscriminado e inculto. O direito de chamar pertence à igreja toda.
Por isso, cada igreja deve conservar o poder de reclamar, eleger e ordenar ministros. Esta igreja Lutero chama de Igreja Legítima. Quando se fala de sacerdotes Reais, está dizendo realmente a respeito da igreja legítima, que por possuir só ela o sacerdócio, também deve ter o poder para eleger e ordenar ministros.
4. A NECESSIDADE DO CHAMADO
E assim, o chamado é necessário. Este é o ponto central da Confissão de Augsburgo XIV, quando diz: "Ninguém deve publicamente ensinar na igreja ou administrar os sacramentos a menos que seja legitimamente chamado".[7]
Mas uma igreja, pela graça de Deus, pode existir por um tempo sem um pastor. Lutero admitiu isto em sua carta aos cidadãos de Praga, quando insistiu com eles para que ficassem sem o sacramento do altar, só com a devoção familiar.
O chamado é tão importante que nenhuma pessoa deve pregar publicamente sem ser chamado por Deus. E se acaso alguém pregar, nenhum cristão deve ouvi-lo. E também ninguém deve ocupar este ofício da pregação (munus docendi), sem um chamado legítimo. E como vimos, sem chamado não há ministério.
Nossas Confissões e teólogos com grande consistência vêem o chamado para o ministério da Palavra como uma ação divina, não diferente do batismo.
5. O PROCESSO DO CHAMADO
5.1 No Novo Testamento
Na prática no NT, o chamado incluía uma série de etapas num processo: o exame, a ordenação, a instalação, que são levados a efeito pelos ministros; nominação, apresentação e confirmação pelos magistrados cristãos; consentimento, voto e aprovação pelo "povo". O Povo tinha que aprovar o ministro e os ministros deviam cumprir a sua parte no processo do chamado, especialmente no exame que era aberto e diante da assembléia, o qual nunca era omitido.
Todo plano elaborado no processo do chamado surgiu pela preocupação de preservar o ministério evangélico, para que o ensino fosse preservado puro e o ministro no ofício público fosse honrado, e, sobretudo, almas fossem salvas.
Os dogmáticos ressaltam que o chamado é sempre permanente. A noção do chamado temporário é inconcebível pela natureza do caso, e, por isso, a matéria não foi considerada por Lutero e as Confissões ou algum teólogo luterano.
5.2 Aposentadoria
Como era de se esperar, a idéia de aposentaria não ocorreu às pessoas no tempo da Reforma e nos séculos seguintes. Lutero, as Confissões e os dogmáticos falam da morte, doença física grave, ou incapacidade, perseguição e exílio, e muitas vezes na recusa inflexível de uma congregação inteira, que rejeita a palavra de Deus, como causa do término de um chamado. Mas para Lutero o chamado é vitalício.
5.3 Troca de Comunidade
O que dizer da transferência de um pastor de uma igreja para outra, ou remover o pastor do seu ofício? Chemnitz segue dizendo:
"Assim como há um método legal (legitima ratio) para chamar alguém para dentro do ministério da igreja, assim há também um método legal para remover alguém ou transferi-lo de uma congregação para outra”.[8]
A transferência ocorre somente quando vem outro chamado legítimo.
Chemnitz se opõe firmemente a pastores paroquiais que se afastam da posição assumida e mudam de locais, “para seu próprio benefício”.
5.4 Destituído do Pastorado
A posição de Lutero e de todos os dogmáticos sobre esta matéria da destituição de um ministro concordam exatamente com a teologia das Confissões, sem nenhum desvio. O chamado é chamado de Deus. É para o ministério da palavra e a administração dos sacramentos. Se alguém é faltoso para com o seu chamado por doutrina falsa ou vida ímpia, Deus o removerá. E ele o fará imediatamente como o chamou.
Gerhard admoesta:
"Nunca devemos permitir pressa neste assunto ou arbitrariedades por parte daqueles que têm o poder para remover um ministro de sua posição e colocá-lo no exílio, sem o reconhecimento das causas legítimas e o cuidadoso exame da situação”.[9]
Tal conhecimento cabe a toda a igreja.
Há duas razões pelas quais Deus remove ministros infiéis de seu ofício:
1) Por causa da doutrina, quando ensinam doutrina falsa: "Os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução" Mt 2.7.
2) Por causa da vida, quando agem de tal maneira que o nome do Senhor é blasfemado, 1 Sm 2.30.
Assim como o chamado, também a deposição pertence à igreja toda, de uma forma correta e ordeira.
5.5 Destituído Injustamente
Se alguém, sem um processo formal e por questões que não são legítimas e suficientes, (conforme o demasiado zelo e condenação dos vícios dos homens, aversão, ou erros insignificantes) é deposto do seu ministério, então aquele que toma o seu lugar não pode ser considerado um ministro verdadeiro, legítimo e chamado. Lutero chama a pessoa que substitui um pastor que foi deposto ilegitimamente de "ladrão e assassino". Ele roubou o chamado do outro e destrói seu ministério.
6. OFÍCIO
A partir da descrição de um dicionário a palavra ofício toma várias direções, ou seja, é analisada amplamente, por isso, é descrita como: Encargo, incumbência, papel, modo de vida, ocupação, profissão, dever especial, obrigação, etc.
A vida é feita de ofícios. Estamos diariamente executando ofícios. Quando terminamos um ofício começamos outro simultaneamente. Cada ofício executa ações diferentes dentre um acordo, contrato, ou chamado. Até podemos dizer que o ofício ocorre de forma concomitante com outro que não está em ação, mas, que pode ser acionado a qualquer momento, ou, ao término do ofício que está em ação. Entende-se melhor o ofício quando colocado dentro das três ordens: Família, Igreja e Estado. Pois, não é fácil administrar os ofícios. Podemos distinguir o ofício da família (pai, mãe) da Igreja (leigo, pastor, líder) do Estado (cidadão, governo), mas, não podemos separá-los. Ser radical e fazer uma separação não funciona. Colocar todos os ofícios no mesmo pacote, e tentar exercê-los ao mesmo instante, também não funciona. Aqui se faz necessário pedir sabedoria Divina, para que através da disciplina, da ética cristã, e até mesmo com condicionamento se possam exercer os ofícios de forma coerente, sensata e que agrade a Deus. Deve-se exercer um ofício como se fosse o único, se dedicando a ele com toda responsabilidade e empatia. Ao passo que, dentro de uma nova função, novo exercício, no ofício seguinte deve esquecer o ofício anterior no qual foi cumprida a responsabilidade; é muito importante deixar as tensões dentro do seu próprio ofício, o leva e traz de tensões acarreta em conflito e pode provocar uma guerra. Trazer as tensões do trabalho para o lar é o mesmo que trazer bactérias para um outro ambiente. Isso pode se tornar muito grave até porque o novo local (corpo) não sabe reagir diante de tal situação, uma vez que não possui anticorpos, não está imunizada para estas bactérias. O mesmo se dá com outros ofícios. É importante se prevenir a fim de não transmitir viroses para outros.
A necessidade tem o poder de encerrar um ofício chamando ao exercício de um outro ou de um novo ofício que precisa ser atendido com urgência. O texto de Lc 10. 25-37 (O Bom Samaritano) ilustra bem esta situação: Sacerdote passou de largo, Levita passou de largo, certo Samaritano passou-lhe perto e teve piedade. Qual destes cumpriu seu ofício? Acudir ao necessitado é ofício de todos. O ofício vai de encontro com o próximo e agrada a Deus. Sem isto, não é ofício, é egotismo.
6.1 Ofício do Sacerdócio Universal
Deus nos chamou por meio do Batismo ao sacerdócio real, nos adotou e nos concedeu benefícios, bem como, somos todos chamados ao serviço através deste ato de graça. A Bíblia deixa claro que todos são sacerdotes (1Pe 2. 5,9; Ap 5.10) e que o sacerdócio oficial (ministério) não parece ser distinto dos leigos a não ser através do ofício que administra os sacramentos e a Palavra. Todos os cristãos são sacerdotes em grau idênticos. Lutero fala em sete funções do sacerdote universal, a saber: Ensino da Palavra de Deus, Batizar, Consagrar, Ligar e desligar pecados, Sacrificar, Orar pelos outros e Julgar e ensinar doutrinas. Após colocar tanta ênfase nos direitos e funções comuns de todos os cristãos, Lutero prossegue e deixa clara a distinção que ele vê entre o sacerdócio universal e o oficio do Santo Ministério:
“É dos direitos comuns dos cristãos que estivemos falando. Pois uma vez que provamos que todas estas coisas são propriedade comum de todos os cristãos, nenhum indivíduo pode se levantar por sua própria autoridade e arrogar apenas para si próprio o que pertence a todos. Aproprie-se, portanto, deste direito e exerça-o onde não houver mais ninguém que tenha os mesmos direitos. Mas os direitos da comunidade exigem que um, ou tantos quantos a comunidade decidir, seja escolhido ou aprovado que, em nome de todos os que tem estes direitos, execute essas funções publicamente. De outra maneira, poderia resultar uma confusão vergonhosa entre o povo de Deus, e um tipo da Babilônia na Igreja, onde tudo dever ser feito com ordem, conforme o apostolo ensina [1Co 14.40]. Pois uma coisa é exercer um direito publicamente; outra é usá-lo em situação de emergência. Publicamente, ninguém dever exercer um direito sem o consentimento do corpo todo ou da Igreja. Em situação de emergência, cada um pode usá-lo como lhe parece melhor”.[10]
O sacerdócio universal capacita os cristãos a proclamar a Palavra de Deus em toda forma possível. Mas, há um limite: ele não pode proclamar esta Palavra publicamente na Igreja. Exceções são casos de emergência ou onde não há outros cristãos.
A proclamação pública é restrita de acordo com a ordem divina apenas a Ministros especialmente chamados. A autoridade do Ministro chamado é distinta daquela dos demais cristãos na extensão se sua comissão: ela inclui a proclamação pública. Ambos, porém, tem a mesma obrigação: Proclamar o mesmo Evangelho.
“É impossível que todos os sacerdotes exerçam o Ministério público ao mesmo tempo. O oficio deve ser confiado a uma pessoa e somente ele deve ser autorizado a pregar, batizar, absolver, e administrar os sacramentos. Onde isto é feito ali o povo de Deus, o santo povo cristão, está presente”.[11]
Quando o cristão pode ou não pode pregar a Palavra e administrar os sacramentos? Em suma:
Onde não há outros cristãos à Pode pregar mesmo sem chamado ou convocação.
Onde há outros cristãos à Não deve pregar a não ser que seja escolhido para ensinar no lugar e por ordem dos demais.
“As funções do sacerdócio geral e do ofício pastoral são as mesmas. A esfera de atuação (pública/privada) e o nível de responsabilidade, no entanto, variam”. [12] Muller expressa este tema da seguinte maneira:
“Pois, conquanto nem todos estejamos no ofício ou vocação pública, ainda assim deve e pode cada cristão ensinar, instruir, admoestar, consolar, repreender com a palavra de Deus a seu próximo quando e onde alguém o necessitar, tal como o pai e a mãe aos filhos e criados, um irmão, vizinho, cidadão ou camponês ao outro. Porquanto um cristão bem pode instruir e admoestar com os dez mandamentos, o credo, a oração, etc., ao outro, que ainda é ignorante ou fraco, e quem o ouve tem a obrigação de também o aceitar dele como palavra de Deus e juntamente dar disto profissão pública”.[13]
Cristo é sacerdote, logo os cristãos são sacerdotes.
6.2 Ofício do Ministério Pastoral
Por uma questão de ordem como o próprio apóstolo Paulo adverte, o grupo de crentes (sacerdócio universal) escolhe alguém para que exerça em função dos demais, o ministério pastoral. Este que exerce este ministério é chamado de: Pastor, ancião, pregador, ministro, bispo, sacerdote – mas tanto faz se é pastor ou reverendo, ambos exercem o mesmo ofício: Ensinar o Evangelho e administrar os Sacramentos. É o chamado que se transforma em ofício. A Confissão de Augsburgo XIV diz que a ninguém é permitido ensinar ou pregar publicamente na igreja ou administrar os Sacramentos sem chamado legítimo. Lutero argumenta no sentido de que é impossível que todos os sacerdotes exerçam o Ministério público ao mesmo tempo. Por isso, o ofício deve ser confiado a uma pessoa e somente ele deve ser autorizado a pregar, batizar, absolver, e administrar os sacramentos.
O pastor chamado tem como ofício unicamente: Pregar e ensinar os meios da Graça; Palavra e Sacramentos. Pois, “ninguém é responsável por tudo, mas apenas até o limite do seu chamado”. [14] Ser guia dos demais significa exercer a paraclesia, ou seja, defender, consolar e exortar por meio do Evangelho. No entanto, para este fim, a ordenação foi originalmente instituída com base escriturística visando prover o povo com Ministros da Palavra.
O Amor a Deus e ao próximo é o ofício número um do sacerdócio.
Em amor a Deus buscamos cumprir os seus mandamentos e lhe prestamos obediência a fim de cumprir o seu propósito de levar a todos a salvação em Cristo por meio da Palavra e dos Sacramentos.
Tanto o sacerdócio universal quanto o ministerial são chamados a fim de cumprir os propósitos de Deus, e não ao contrário; não podemos utilizar Deus para cumprir nossos propósitos. E o propósito de Deus é: Salvar vidas em Cristo. Nós somos instrumentos nas mãos de Deus a fim de cumprir este propósito. Podemos escolher muitas coisas na vida, mas aqui temos que prestar obediência a Deus e cumprir o propósito Dele. O autor Warren afirmou em seu livro: “Sem Deus, a vida não tem nenhum propósito, e sem um propósito a vida não tem significado. Sem um significado, a vida não tem relevância ou esperança”. [15] Pastores e leigos são instrumentos dos propósitos de Deus cada qual com suas responsabilidades. O pastor não é chamado para o propósito da congregação, mas de Deus. De igual forma a congregação existe para cumprir os propósitos de Deus. Cabe ao pastor zelar pelas vidas das ovelhas cumprindo o propósito de Deus em: Ensinar o Evangelho e administrar os Sacramentos.
Pastores tem encontrado dificuldades porque acham que devem estabelecer propósitos para a congregação e para si, se esquecendo dos propósitos de Deus. Ele acaba fazendo do seu ofício uma miscelânea, criando com isto um ativismo, e deixando de executar de maneira melhor e coerente o ofício da Palavra e dos Sacramentos que Deus estabeleceu como propósito.
7. O CHAMADO PASTORAL NA IELB
O chamado ao Ofício Ministerial é de Deus. Não existe uma regra pela qual Deus chama pessoas ao Ofício Ministerial de maneira que somente este ou aquele chamado seja o correto e verdadeiro. Deus chama pessoas de acordo com a sua vontade. A medida em que a pessoa chamada exerce o Ofício Ministerial de maneira que possa ser honrado, então o chamado é divino.
Passaremos a expor o sistema de chamado da IELB que não é o único correto e verdadeiro. Na IELB há uma distinção entre Sacerdócio Universal de todos os Crentes (leigos) e Ministério Público (pastores). Essa distinção não é pela competência, mas pelo chamado ou designação. O Ministério pastoral pode ser resumido em pregação pública da Palavra de Deus e administração dos Sacramentos. Somente se estenderá este Ofício aos designados para tal dentro da igreja. O Ministério Pastoral é uma obra de Deus, ou obra divina, enquanto é serviço da proclamação do Evangelho.
O designado para o Ministério Pastoral pode realizar todas as funções e serviços, como pode também treinar e levar outros a exercerem funções como batizar, distribuir a Santa Ceia. Lutero: “Caso decida limitar-se ao ofício da pregação, poderá dedicar-se a este ofício, delegando outras funções auxiliares a outras pessoas, como fizeram Cristo, Paulo...”.[16]
A relação entre igreja e ministro é de auxílio e serviço mútuos: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor”. “Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” Efésios 4.15-16, 5.21. Os ministros como indivíduos, são servos da igreja e lhe obedecem: “Quando, pois, alguém diz: Eu sou de Paulo, e outro: Eu sou de Apolo, não é evidente que andais segundo os homens? Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” 1ª Coríntios 3.4-8.
É impróprio referir o atestado ou diploma de chamado como “chamado divino”. Divino é o exercício do Ministério Pastoral. O chamado é mais propriamente designado “Chamado Regular”.[17]
A vocação não autoriza o Ministério Pastoral. É preciso a aprovação pública da Igreja por meio da designação ou chamado, confirmado pela instalação.
A ordenação é o rito que declara publicamente que alguém foi chamado e é apto para o Ministério Pastoral em determinada função e lugar.
O ministério pastoral será exercido pelo chamado ou comissionamento dirigido a um homem devidamente formado e recomendado ao ministério pela Faculdade de Teologia da IELB, ou por uma de suas igrejas-irmãs, ou pela comissão colóquio. O chamado pastoral será feito pela congregação por tempo indeterminado, e em casos especiais poderá ser por tempo determinado. O comissionamento será feito pela Diretoria Nacional por tempo determinado; em casos especiais por tempo indeterminado, estando-lhe reservados os mesmos direitos, privilégios e obrigações de todos os pastores. Não há diferença no ofício, porém há diferença em quem expede o chamado.
No processo de chamado o pastor poderá ser entrevistado pela congregação como também, após receber o chamado ou comissionamento, poderá visitar a congregação, para conhecimento mútuo.
É considerado pastor ativo aquele que: aceitou chamado ou comissionamento; que solicitou ao Presidente da IELB sua ordenação e instalação; que solicitou ao Conselho Diretor, através da Comissão Jurídica, a sua filiação como membro votante da IELB. O pastor em período de estudo para aperfeiçoamento, mestrado ou doutorado, mediante autorização da Diretoria Nacional, é considerado pastor ativo durante este período.
Ao bacharel em Teologia, sem chamado e ordenação, não cabe exercer publicamente (oficialmente) funções do Ministério Pastoral. Somente mediante autorização das instâncias regulares, autorizadas pela Convenção Nacional, poderão oficiar em casos especiais.
O pastor chamado ou comissionado poderá ser demitido pelo voto concorde de dois terços dos membros votantes presentes na assembléia da congregação, após tratativas em nível de congregação ou paróquia, Conselheiro e Líder Leigo Distrital, e Diretoria Nacional, ocorrendo um dos seguintes motivos:
· Comprovada incapacidade física permanente para o exercício de suas funções;
· Recusa de cooperação com a IELB;
· Negligência comprovada de suas funções;
· Não cumprimento de preceitos regulamentares;
· Profissão de doutrina falsa;
· Conduta indigna;
· Comprovada incompetência para a função.
CONCLUSÃO
Concluí-se, portanto, afirmando que: O Chamado hoje é o mesmo da Igreja Primitiva e da Reforma. Pois, sempre foi e continua sendo Deus o autor do Chamado. Contudo, Deus usa meios para cumprir seus propósitos. Todos são chamados a fim de cumprir os propósitos de Deus, cada um em sua esfera de atuação e dentro de sua responsabilidade.
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[1] Pareceres da CTRE. p. 10.
[2] A Doutrina do Chamado nas Confissões e Ortodoxia Luterana. p. 3.
[3] Ibidem. p. 3.
[4] Confessional Lutheranism in Today's World. p. 5.
[5] Lutero e o Ministério Pastoral – 1º Simpósio Internacional de Lutero. p. 128.
[6] Livro de Concórdia. Apologia da Confissão XXVII 41. p. 296.
[7] Livro de Concórdia. p. 34.
[8] Loci Theologici. p. 698.
[9] Loci Theologici. p. 4ss.
[10] Lutero citado em Lutero e o Ministério Pastoral – 1º Simpósio Internacional de Lutero. p. 37.
[11] Lutero e o Ministério Pastoral – 1º Simpósio Internacional de Lutero. p. 21.
[12] Ibidem. p. 37.
[13] Dogmática Cristã. p. 245
[14] A Ética de Cada Dia. p. 154.
[15] Uma Vida com Propósitos. p. 29.
[16] Pareceres da CTRE. p. 9. Nota 7.
[17] Livro de Concórdia. p. 34.